Chamada para publicação
Dossiê: Saúde mental através do olhar contra-colonial: sanidade, perigo e loucura em questão, n.2, 2026
Coordenadores do Dossiê:
Victoria Mello Fernandes
mellofvictoria@gmail.com
Lattes: https://lattes.cnpq.br/1227361484286093
ORCid: https://orcid.org/0000-0002-8294-6128
Leonardo da Rocha Bezerra de Souza
lrb.souza@gmail.com
Lattes: http://lattes.cnpq.br/1400670385958208
ORCid: https://orcid.org/0000-0002-8192-1009
Apresentação
O debate em torno da saúde mental nas Ciências Sociais não é recente, embora, no contexto brasileiro, sua consolidação seja relativamente mais tardia. Autores como Canesqui (2003), Marroni (2007), Langdon, Follér e Maluf (2012) e Russo e Carrara (2015) indicam que esse campo se estrutura de forma mais consistente a partir da década de 1970, momento em que a Sociologia e a Antropologia passam a se dedicar, de modo mais sistemático, ao estudo de fenômenos como perturbação, loucura e doença mental.
Essa inflexão teórica e empírica contribuiu para a formação de um campo de investigação profícuo, que, nas décadas seguintes, viria a se articular com os processos de consolidação de direitos e com o debate público sobre políticas de saúde mental, sobretudo após a Constituição Federal de 1988.
No plano internacional, quando observamos a trajetória das Ciências Sociais em perspectiva histórica, destacam-se os estudos realizados na Europa e nos Estados Unidos, particularmente as contribuições de Michel Foucault (1984, 2007, 2011, 2014, 2022) e Erving Goffman (2015). Em suas análises, a questão da sanidade mental aparece associada às instituições de saúde e prisão, compreendidas como dispositivos de controle e repressão que, ao mesmo tempo, engendram formas de normatividade e gestão dos corpos enclausurados. Essa administração da vida sob o crivo do “perito” — aquele que define quem é são e quem não é — revela um modo de organização do mundo profundamente vinculado às estruturas do capitalismo moderno.
Contudo, tais perspectivas clássicas, embora fundamentais, não incorporam plenamente a experiência colonial como elemento constitutivo desses sistemas de internação, encarceramento e disciplinamento da vida. O que observamos, no entanto, é que essas práticas são herdeiras diretas do sistema-mundo eurocêntrico e colonial (Dussel, 2012; Wallerstein, 1996; Segato, 2021), que continuam a se reproduzir cotidianamente sob novas formas e racionalidades.
Embora o estágio do colonialismo do século XV e XVII tenha passado por profundas modificações, como pensa Quijano (2005), a colonialidade performa como braço desse mesmo fluxo, ela operaciona as transformações e a reprodução desses mecanismos, conseguindo alcançar locais, lógicas e mecanismos antes impensados.
Nos últimos anos, diversos autores têm colocado no centro de suas análises as formas coloniais de hierarquização e classificação social, apontando-as como fundamentais para compreender a constituição social da loucura e do perigo. Nesse movimento, ganha relevo a retomada do pensamento de Frantz Fanon, como evidencia o trabalho de Rachel Passos (2019), bem como a recente coleção publicada pela Editora Hucitec, que reúne diferentes autores dedicados a problematizar a saúde mental a partir dessa e de outras chaves críticas.
Atualmente, não é mais possível circunscrever o debate sobre saúde mental a um único enquadramento teórico. A vigilância, as tecnologias de comunicação e a virtualização da vida e das relações já se consolidaram como novos paradigmas de sociabilidade. Nesse contexto, proliferam transtornos que, segundo Le Breton (2007), expressam uma crescente medicamentalização da existência: comprimidos para dormir, para acordar, para amar, para esquecer. O corpo cada vez mais medicalizado é submetido ao crivo do diagnóstico, do tratamento e, muitas vezes, da internação ou do encarceramento. Enquanto a sociedade respira sob o peso dos problemas mentais, ecoam gritos de socorro dirigidos a psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e demais profissionais da escuta.
Estudos recentes apontam para um aumento expressivo de casos de ansiedade e depressão. Segundo o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, a concessão de benefícios previdenciários por motivos de saúde mental, entre acidentários e não acidentários, saltou de aproximadamente 283 mil em 2023 para 471 mil em 2024, um crescimento de quase 40%. Desde o início da série histórica, em 2012, este é o maior pico registrado, com oscilações ascendentes em 2020 — ano da pandemia de COVID-19 — e novamente em 2023. Entre os setores mais afetados por afastamentos acidentários destaca-se a Administração Pública Geral (14,9%), os Bancos múltiplos com carteira comercial (14,8%) e as Atividades de Atendimento Hospitalar (8,91%). Já nos afastamentos não acidentários, a Administração Pública mantém a liderança (8,56%), seguida pelo Atendimento Hospitalar (5,51%) e pelo Comércio Varejista, incluindo supermercados (4,48%).
Historicamente, a saúde mental tem se constituído como um dos instrumentos centrais da governamentalidade — da gestão das vidas e do mundo — e, simultaneamente, como um locus de dominação colonial. É nesse espaço que se produzem e reproduzem subalternidades, classificações e formas de poder simbólico (Bourdieu, 2011; 2024), responsáveis pela manutenção das estruturas de dominação. Dessa engrenagem emergem estigmas e estereótipos, que sustentam violências de gênero e raça (Saffioti, 2015; Gonzalez, 2020), como as figuras históricas da mulher “histérica” ou “nervosa”.
Corpos, culturas e saberes têm sido alvo de genocídios (Nascimento, 2016) e epistemicídios (Carneiro, 2005), que produzem silenciamentos, exclusões e violências extremas — sobre especialmente os corpos negros e, de modo mais brutal, sobre o corpo da mulher negra (Davis, 2010). Trata-se do processo que Dussel (1983) denominou de encobrimento do Outro, inaugurado com a primeira globalização e o chamado “Novo Mundo”, que mascarou, em verdade, a destruição de mundos pré-coloniais. Entre o cárcere e o manicômio, figuram corpos cujo estatuto humano foi deslegitimado pela hierarquia social e política moderna-colonial.
A loucura — agora reconhecida como situada, encarnada e histórica — tem cor, tem voz, tem território, tem sexo e tem gênero. Essa é talvez a descoberta mais contundente de nosso tempo: a constatação de que até os cânones precisam ser revisitados, para podermos descortinar as realidades sociais ocultadas, violadas e camufladas ao longo da história.
A proposta deste dossiê da revista Cadernos Mulungu: revista de ciências sociais e artes, organizada pelo Coletivo Fulor de Mulungu, é convidar pesquisadoras(es), intelectuais, profissionais das áreas da saúde e das ciências sociais, bem como militantes de movimentos sociais, a contribuírem com a construção de um volume dedicado à reflexão crítica sobre as múltiplas dimensões da saúde mental.
O dossiê busca reunir trabalhos com sólido embasamento teórico, técnico e social, capazes de ampliar o diálogo interdisciplinar e fortalecer a divulgação científica sobre a temática. Nosso objetivo é promover um debate qualificado, plural e sensível às questões contemporâneas, partindo das ciências sociais, mas enfatizando as intersecções com outros campos do saber.
As propostas devem ser enviadas para [edicoesmulungu@gmail.com], conforme as DIRETRIZES PARA AUTORES(AS) da CMu, até o dia 31 de janeiro de 2026.
Referências bibliográficas
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. Rio de Janeiro: DIFEL, 2024.
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CANESQUI, Ana Maria. Os estudos de antropologia da saúde/doença no Brasil na década de 1990. Ciência & Saúde Coletiva. Rio de Janeiro: v. 8, n. 1, 109-124, 2003.
CARNEIRO, Sueli. A Construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser. [Tese de Doutorado]. Programa de Pós-Graduação em Educação - Universidade de São Paulo (USP). São Paulo: USP, 2005.
DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo, 2010.
DUSSEL, Enrique. A ética da Libertação na idade da Globalização e da Exclusão. Petrópolis: Vozes, 2012.
DUSSEL, Enrique. 1492: O encobrimento do outro: a origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1983.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade vol. 1. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz & Terra, 2022.
FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 2014.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2011,
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2007.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade vol. 2. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 2015.
GONZALEZ, Lelia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
LANGDON, Esther Jean; FÓLLER, Maj-Lis; MALUF, Sônia Weidner. Um balanço da antropologia da saúde no Brasil e seus diálogos com as antropologias mundiais. Anuário Antropológico. Brasília: v. 37, n. 1, p. 51-89, 2012.
LE BRETON, David. Adeus ao corpo. Campinas: Papirus, 2003.
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PASSOS, Rachel Gouveia. Frantz Fanon, Reforma Psiquiátrica e Luta Antimanicomial no Brasil: o que escapou nesse processo?. Sociedade em Debate. Pelotas: v. 25, n. 3, p. 74-88, 2019.
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QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In: A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Clacso, 2005.
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SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, Patriarcado, Violência. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
SEGATO, Rita. Crítica da colonialidade em oito ensaios. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
WALLERSTEIN, Immanuel. A reestruturação capitalista e o sistema mundial. Perspectiva: São Paulo: v. 20/21, p. 249-267, 1997/1996.
Cronograma / Timetable / Cronograma
Lançamento da chamada de trabalhos / Call for Papers / Llamada de trabajos: outubro / October / octubre — 2025
Recebimento de trabalhos completos / Deadline for Articles / Plazo para el envío de los trabajos completos: até / until / hasta 31/01/2026
Retorno dos manuscritos aos autores após avaliação / Feedback to Authors after Review / Devolución de manuscritos a los autores tras la evaluación: até / until / hasta 28/02/2026
Envio das versões finais revisadas pelos autores / Submission of Revised Final Versions / Envío de las versiones finales revisadas por los autores: até / until / hasta 10/05/2026
Publicação / Publication / Publicación: 20/06/2026
Envio de manuscritos exclusivamente pelo email: edicoesmulungu@gmail.com