Arthur Leonardo de Lima Pereira
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Mestre em Antropologia Social | Natal, RN, Brasil
arthur.lima.04@ufrn.edu.br
https://orcid.org/0000-0003-0237-9483
Este ensaio propõe o conceito de cidade-catálogo para analisar a reorganização material e simbólica dos centros urbanos do Nordeste brasileiro sob a lógica da financeirização e das plataformas digitais de hospedagem. Partindo de uma reflexão situada em Natal/RN e João Pessoa/PB, articula-se o par dialético ruínas da modernidade e cidade-catálogo para compreender como a produção ativa de vazios urbanos e a conversão de territórios em ativos financeiros operam de forma diferenciada em cada contexto. Em diálogo com a teoria crítica, a antropologia urbana e os debates sobre colonialismo digital, o ensaio apresenta uma aposta metodológica: a construção de contra-arquivos visuais como ferramenta de resistência ao apagamento promovido pela cidade-catálogo. Inspirado nas noções benjaminianas de imagem dialética e de “escovar a história a contrapelo”, bem como na filosofia das imagens de Didi-Huberman, o contra-arquivo emerge como política de memória capaz de visibilizar as sobrevivências, os vagalumes urbanos e as experiências que teimam em existir nas brechas do capitalismo de plataforma.
palavras-chave: antropologia urbana; financeirização; cidades nordestinas; colonialismo digital; contra-arquivo.
Catalogue-city and ruins of modernity: towards a counter-archive of urban financialization in Northeast Brazil
abstract: This essay proposes the concept of the catalogue-city to analyze the material and symbolic reorganization of urban centers in the Brazilian Northeast under the logic of financialization and digital hosting platforms. Based on a situated reflection in Natal/RN and João Pessoa/PB, it articulates the dialectical pair ruins of modernity and catalogue-city to understand how the active production of urban voids and the conversion of territories into financial assets operate differently in each context. In dialogue with critical theory, urban anthropology, and debates on digital colonialism, the essay presents a methodological proposition: the construction of visual counter-archives as a tool of resistance against the erasure promoted by the catalogue-city. Inspired by Benjaminian notions of dialectical image and "brushing history against the grain," as well as Didi-Huberman's philosophy of images, the counter-archive emerges as a politics of memory capable of making visible the survivals, the urban fireflies, and the experiences that persist in the cracks of platform capitalism.
keywords: urban anthropology; financialization; Northeastern cities; digital colonialism; counter-archive.
Ciudad-catálogo y ruinas de la modernidad: hacia un contraarchivo de la financiarización urbana en el noreste de Brasil
resumen: Este ensayo propone el concepto de ciudad-catálogo para analizar la reorganización material y simbólica de los centros urbanos del Nordeste brasileño bajo la lógica de la financiarización y las plataformas digitales de hospedaje. Partiendo de una reflexión situada en Natal/RN y João Pessoa/PB, se articula el par dialéctico ruinas de la modernidad y ciudad-catálogo para comprender cómo la producción activa de vacíos urbanos y la conversión de territorios en activos financieros operan de forma diferenciada en cada contexto. En diálogo con la teoría crítica, la antropología urbana y los debates sobre colonialismo digital, el ensayo presenta una apuesta metodológica: la construcción de contra-archivos visuales como herramienta de resistencia al borramiento promovido por la ciudad-catálogo. Inspirado en las nociones benjaminianas de imagen dialéctica y de “cepillar la historia a contrapelo”, así como en la filosofía de las imágenes de Didi-Huberman, el contra-archivo emerge como política de memoria capaz de visibilizar las supervivencias, las luciérnagas urbanas y las experiencias que persisten en las grietas del capitalismo de plataforma.
palabras clave: antropología urbana; financiarización; ciudades nordestinas; colonialismo digital; contra-archivo.
Este ensaio é uma reação ao evento “Cidade em disputa: transições energéticas e financeirização do urbano”, um evento virtual com transmissão ao vivo realizado no YouTube, no âmbito da programação do “Outubro Urbano” 2025, evento organizado pelo ONU-Habitat. No dia do evento, a programação teve a abertura mediada por José Maycom da Silva Cunha (USP). Em seguida, ocorreu o primeiro painel com Leonardo da Rocha Bezerra de Souza (UFRGS) abordando “Energia limpa para quem? Transições energéticas e tensões no semiárido urbano-rural”. Na ocasião, eu apresentei o segundo painel, intitulado “Cidade em disputa: ruínas, plataformas digitais e a fantasmagoria urbana em Natal/RN”, com comentários e questionamentos da debatedora Victória Mello Fernandes (UFRGS), que conduziu o debate na mesa.
Mais do que um relato do evento, esse ensaio caminha na direção da proposta de um instrumental analítico para compreender o que venho chamando de cidade-catálogo: a cidade reorganizada material e simbolicamente para ser consumida como produto, em detrimento de seu tecido social. Em diálogo com a produção bibliográfica recente sobre os obstáculos à reconstrução e redemocratização da política urbana brasileira, proponho uma reflexão ancorada em casos concretos do Nordeste, articulando teoria crítica, antropologia urbana e uma aposta metodológica: a construção de contra-arquivos visuais como ferramenta de resistência ao apagamento promovido pela cidade-catálogo.
Na mesa, ao lado de Souza (2025), que acabara de expor as contradições da transição energética no semiárido potiguar, fui tomado por uma inquietação que agora busco transformar em reflexão escrita. Enquanto ele descrevia como usinas eólicas e solares avançam sobre territórios tradicionais no interior do Rio Grande do Norte, prometendo “energia limpa” enquanto produzem despossessão, deslocamentos e rupturas de modos de vida, eu me preparava para falar de outro tipo de promessa: aquela veiculada pelas plataformas digitais de hospedagem, que oferecem “compartilhamento” e “renda extra” ao mesmo tempo em que reconfiguram os centros urbanos sob a lógica da financeirização.
Duas cenas de um mesmo ponto crítico: de um lado o semiárido, uma paisagem transformada por aerogeradores que iluminam cidades distantes, mas, em contrapartida, deixam as comunidades locais enfrentar apagões e restrições de acesso; por outro lado, temos a cidade de Natal/RN, com seus bairros históricos como a Ribeira e a Cidade Alta, berços da cidade, convertidos em ruínas com alto potencial lucrativo, mas onde quase ninguém vive, estando à espera da valorização que os transformará em catálogo para turistas e investidores. Caso semelhante acontece no litoral de João Pessoa/PB, 9.016 anúncios ativos no Airbnb disputam espaço com a memória de antigos moradores expulsos pela especulação (Leão, 2025). O que conecta essas cenas é a operação de um mesmo dispositivo: o capitalismo contemporâneo em sua fase de financeirização e plataformização digital, que extrai valor não apenas do trabalho, mas dos territórios, dos dados e dos futuros possíveis.
Toda reflexão sobre a cidade contemporânea precisa partir de um ponto de reconhecimento: as promessas da modernidade urbana, como moradia digna, mobilidade e espaços públicos de qualidade, não foram cumpridas para a maioria da população brasileira. O que temos, em seu lugar, são ruínas. Não apenas ruínas no sentido arqueológico, mas, sobretudo, ruínas vivas, habitadas, que testemunham a falência de um projeto e a persistência de outros.
As ruínas da modernidade estão por toda parte nos centros históricos quer em Natal, quer em João Pessoa. Prédios tombados que desabam pela ação do tempo e da especulação. Lojas que fecharam com a migração do comércio para os shoppings. Praças esvaziadas, outrora locais de encontro e sociabilidade. Essas ruínas não são acidentes, são antes produzidas ativamente. Por isso, manter áreas centrais em estado de ruína é rentável, pois ao desvalorizar imóveis para futura valorização, esse movimento expulsa moradores de baixa renda, cria vazios urbanos que aguardam o próximo ciclo de acumulação.
Sobre essas ruínas, projeta-se atualmente aquilo que chamaremos de cidade-catálogo. Se a ruína é o passado que insiste em não passar, o catálogo é o futuro que nunca chega, ou que chega apenas para poucos. A cidade-catálogo é aquela cujas imagens circulam descoladas de seu tecido social: fotos de interiores em anúncios do Airbnb, paisagens turísticas sem moradores, bairros históricos reduzidos a cenários para selfies. É a cidade da “economia do compartilhamento” que, na prática, opera como dispositivo de colonialismo digital, extraindo dados e territórios, reproduzindo desigualdades raciais e de classe, intensificando processos de expulsão e precarização.
O conceito de colonialismo digital ilumina um aspecto central desse processo ao perpetuar a continuidade das lógicas coloniais por meio das tecnologias digitais, agora baseada na extração de dados e na modelagem algorítmica de comportamentos e territórios. Como apontam Faustino e Lippold (2022), o colonialismo digital não é metáfora, mas uma atualização, no século XXI, de um padrão histórico de expropriação que agora se vale da mediação tecnológica para produzir e reproduzir desigualdades. No caso das plataformas de hospedagem, essa extração é dupla: extraem não apenas dados dos usuários, tais como preferências, comportamentos e padrões de deslocamento, como também territórios, transformando bairros inteiros em zonas de circulação turística, redefinindo usos do espaço, precarizando relações de moradia e de trabalho.
Na cidade de Natal, a cidade-catálogo se manifesta de forma paradoxal. Diferentemente de cidades do centro do capitalismo como Barcelona, Paris ou Londres, onde a concentração de ofertas do Airbnb produz superlotação e adensamento de suas áreas centrais e bairros históricos, aqui o mecanismo produz esvaziamento. A valorização imobiliária impulsionada pela expectativa de futuros empreendimentos turísticos expulsa moradores antigos e pequenos comerciantes sem substituí-los por novos fluxos de vida. O resultado são áreas centrais cada vez mais vazias, ou seja, ruínas que valem muito, mas onde quase ninguém mora. É a cidade-catálogo como promessa, pois a plataforma não precisa estar plenamente operante para produzir efeitos; basta que exista como horizonte de expectativa, justificando a manutenção de preços elevados e a não-destinação dos espaços para moradia popular.
Em João Pessoa, o fenômeno ganha contornos distintos, igualmente preocupantes. Com mais de 9 mil anúncios ativos, a capital paraibana vive uma pressão intensa sobre bairros litorâneos como Tambaú e Cabo Branco (Leão, 2025). Aqui, a cidade-catálogo se realiza de forma mais plena, com edifícios residenciais convertidos em hotéis informais, placas de “Aluga-se por temporada” em cada esquina, moradores queixando-se da perda de sossego e segurança. O judiciário local, nesse sentido, tem respondido com decisões que restringem a prática, mas a máquina da plataforma segue operando, retroalimentada por investidores que veem na locação de curta temporada uma rentabilidade muito superior ao aluguel convencional.
Desse modo, o contraste entre Natal (esvaziamento) e João Pessoa (adensamento turístico) revela algo fundamental: a cidade-catálogo não é um modelo uniforme, mas um dispositivo que potencializa dinâmicas pré-existentes em cada contexto. O que a plataforma faz é traduzir essas dinâmicas para a linguagem do capitalismo digital, com uma economia de dados e algoritmos inseridos num cenário de conectividade global que opera reinscrevendo desigualdades históricas em novos registros e tornando-as mais difíceis de mapear e combater. Afinal, como regular uma empresa que se apresenta como mera intermediária tecnológica, e que se desresponsabiliza do uso dos imóveis que anuncia?.
O diagnóstico dos obstáculos à reconstrução e redemocratização da política urbana brasileira, oferecido por Alfonsin et al. (2024), é crucial para situar o debate sobre plataformas digitais em um quadro mais amplo. As autoras identificam três desafios estruturais que dialogam diretamente com nosso objeto.
Primeiro, o enfrentamento das mudanças climáticas. Significa dizer que a emergência climática impõe uma revisão profunda dos padrões de ocupação e uso do solo urbano. No caso das plataformas de hospedagem, isso se traduz na necessidade de repensar a relação entre turismo, mobilidade e emissões, mas também na oportunidade de articular a crítica à financeirização com a luta por cidades mais justas e sustentáveis. A transição energética no campo, discutida por Souza (2025) na mesa, e a transição urbana nas cidades são faces da mesma moeda.
Segundo, temos a efetivação dos instrumentos de combate à retenção especulativa de imóveis urbanos. O Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001) previu mecanismos como o IPTU progressivo no tempo e a desapropriação com pagamento em títulos para imóveis que não cumprem sua função social de habitação. Passadas mais de duas décadas, tais instrumentos seguem subutilizados. O que a cidade-catálogo revela é uma nova modalidade de retenção especulativa, por meio de imóveis mantidos vazios não para aguardar valorização passiva, mas para serem ofertados em plataformas, gerando renda sem cumprir função social alguma. Logo, a financeirização da moradia exige a revisão urgente da política habitacional brasileira.
Por último, nos voltamos à financeirização da moradia como fenômeno estrutural. O que vemos em Natal e João Pessoa não é um desvio localizado, mas a manifestação de um processo global que transforma moradia em ativo financeiro, subordinando o valor de uso ao valor de troca. As plataformas digitais são o vetor contemporâneo dessa financeirização, do mesmo modo em que não são sua causa primeira. A causa primeira está na própria gramática do capitalismo, que tende a transformar tudo em mercadoria, inclusive o direito fundamental à moradia digna.
A esses três obstáculos, acrescento um quarto, que a mesa “Cidade em disputa” tornou evidente, qual seja, a dificuldade de articular lutas urbanas e rurais em um mesmo projeto político. Enquanto Souza (2025) descrevia os impactos das usinas eólicas sobre comunidades do semiárido, eu falava dos impactos do Airbnb sobre bairros centrais na cidade de Natal. Duas realidades aparentemente distantes, mas unidas pela mesma lógica de transformação de territórios em ativos financeiros, da subordinação da vida ao mercado e da produção e manutenção de desigualdades sob o discurso da inovação e da sustentabilidade. Superar essa fragmentação é condição primeira para se vislumbrar uma reconstrução da política urbana brasileira.
O contra-arquivo como método e como política
Diante da potência da cidade-catálogo em produzir imagens desencarnadas dos territórios, a antropologia visual pode operar numa contraconduta. É nesse ponto que minha trajetória no Núcleo de Antropologia Visual (NAVIS/UFRN) se oferece como horizonte de possibilidade às angústias que atravessam esta reflexão.
O que proponho é a construção sistemática de contra-arquivos visuais da cidade-catálogo. Mas o que significa um contra-arquivo? Por que falar de um contra-arquivo visual para as cidades? Porque um arquivo ou, mais especificamente, uma imagem, como nos ensina Didi-Huberman, nunca é neutra. O que se arquiva é o que se considera digno de memória. O que se descarta é o que se quer esquecer. Nesse sentido, a cidade-catálogo opera como um arquivo seletivo ao arquivar as imagens que interessam ao consumo e descartar tudo o que não serve a esse propósito, logo a precariedade, o conflito, a memória, a vida cotidiana em sua complexidade e contradição são esquecidos ou camuflados.
É precisamente nesse ponto que a operação benjaminiana de “escovar a história a contrapelo” se torna uma ferramenta teórica e política indispensável para análise de nosso caso. De forma semelhante, Georges Didi-Huberman (2015), ao citar Walter Benjamin nos lembra que escovar a contrapelo significa “revelar a pele subjacente, a carne escondida por detrás das coisas” (p. 101). Trata-se, afinal, de chamar à luz os momentos mais triviais e menos idealistas da historicidade, de “contrariar violentamente o sentido do pelo”, ou seja, os caminhos pelos quais a história oficial e as narrativas hegemônicas são tecidas.
O contra-arquivo visual que propomos é, portanto, uma prática sistemática de escovar a cidade a contrapelo. É um esforço, sobretudo, para revelar a pele subjacente do tecido urbano, as ruínas que a especulação esconde, os moradores que a turistificação invisibiliza, e os trabalhadores migrantes cujas mãos sustentam a economia do turismo, mas cujos corpos são empurrados para as periferias.
O contra-arquivo, assim, não é apenas um acervo de imagens alternativas; antes, ele é uma política de memória ancorada numa operação teórica de escovar a história no sentido oposto ao do catálogo, trazendo à luz o tecido escondido por detrás das fachadas. É a afirmação de que há vida para além da lógica da extração, que há pessoas que resistem, que há usos da cidade que escapam ao arquivo seletivo do capitalismo de plataforma. É, ao mesmo tempo, uma política do presente, pois ao tornar visível o que a plataforma quer invisibilizar, essa operação cria condições concretas para a ação coletiva e para a disputa de narrativas sobre a cidade.
O contra-arquivo, desse modo, é esse algo, um acervo público, político, disputável, que pode ser apropriado por movimentos sociais, por gestores públicos, por moradores que se sentem invisibilizados, por futuras gerações que queiram saber como era a cidade antes da plataformização total.
Vivemos um momento em que a própria vida, em especial a sua dimensão mais cotidiana, afetiva e relacional, tornou-se matéria-prima para a extração de valor. Não se trata apenas de usar plataformas digitais para intermediar atividades pré-existentes; trata-se de um processo mais profundo, que Couldry e Mejias (2019) denominam “colonialismo de dados”. Significa dizer que a transformação da vida social em dados alimenta máquinas de processamento algorítmico, gerando valor para corporações enquanto nós, cidadãos comuns, somos excluídos desse circuito. Como alerta Thatcher et al. (2016), esse processo opera por meio de uma “acumulação por despossessão” em novas bases, pois o que outrora significava experiência vivida, saber local, memória partilhada, agora é capturado, quantificado e convertido em ativo.
Nas cidades do Nordeste brasileiro, todavia, essa digitalização da vida assume contornos específicos. No momento em que um apartamento na cidade de Natal é listado no Airbnb, não é apenas um imóvel que ingressa no mercado de locação por temporada. Refere-se, antes, a um conjunto de relações de vizinhança, histórias de ocupação do território, e memórias urbanas que são subitamente transformadas em ativo financeiro. O algoritmo da plataforma, além de capturar o preço da diária e as datas reservadas, captura também os padrões de deslocamento dos hóspedes, suas avaliações sobre o bairro, suas preferências estéticas, e realimenta esses dados no sistema, orientando futuras escolhas de outros usuários. O que retorna para o território? Quase nada. O valor gerado por milhares de interações em Natal ou João Pessoa não financia infraestrutura local, não fortalece políticas habitacionais, ele flui para os acionistas da plataforma, para a nuvem que nunca toca o chão da cidade.
A governança digital que emerge desse processo é tanto uma questão técnica das plataformas, quanto uma dinâmica profundamente política. Para Mouton e Burns (2021), a operação das plataformas nas cidades contemporâneas instaura um regime que pode ser mais bem compreendido como “neocolonialismo digital”, uma vez que, diferentemente do colonialismo clássico, que operava por ocupação territorial direta e administração explícita, o neocolonialismo digital atuaria por meio da extração de dados, da modelagem algorítmica de comportamentos e da criação de dependências tecnológicas que subordinam territórios periféricos aos centros globais de acumulação. As cidades nordestinas tornam-se, assim, campos de extração de dados e de futuros possíveis.
Antenucci (2021), ao estudar as infraestruturas de extração na smart city de Kolkata, oferece um par conceitual útil ao unir extrativismo urbano ao urbanismo extrativo. O primeiro diz respeito à captura de valor por meio da coleta e processamento de dados gerados pela vida urbana, enquanto que o segundo refere-se à reconfiguração material e simbólica da cidade para viabilizar essa captura. Em Natal, o urbanismo extrativo se materializa na manutenção estratégica de ruínas, nos prédios vazios que aguardam valorização, bairros centrais esvaziados de moradores, mas repletos de potencial especulativo. Em João Pessoa, por outro lado, manifesta-se na conversão de edifícios residenciais em hotéis informais, na pressão sobre bairros litorâneos e na reconfiguração do espaço para atender ao fluxo de visitantes temporários. Em ambos os casos, o que se produz é uma cidade cada vez mais fraturada, onde o direito à moradia e à permanência é subordinado à lógica da extração.
A cidade-catálogo, como apontei, reorganiza tanto o espaço, quanto o tempo. Ela opera por meio de uma temporalidade peculiar, que poder ser definido como um “presente perpétuo do consumo”. Nas fotos dos anúncios do Airbnb, os imóveis aparecem sempre prontos para receber o próximo hóspede. O catálogo exige a suspensão da história, a eternização de um presente sem passado e sem futuro.
Sobre essas imagens, porém, projetam-se as sombras das ruínas. Os prédios abandonados da Ribeira, as fachadas degradadas da Cidade Alta e os sobrados coloniais de João Pessoa que desabam pela ação do tempo e da especulação, testemunhando uma outra temporalidade: a do abandono programado, de um processo de arruinamento produzido como estratégia de valorização futura. Como argumenta Pereira (2022), a ruína não é acidente, ela é antes resultado de decisões políticas e econômicas que definem quais territórios merecem investimento e quais podem ser deixados para trás. No caso dos centros históricos nordestinos, a produção da ruína é condição para a promessa da cidade-catálogo, já que só se pode transformar um bairro em catálogo se ele for primeiro esvaziado de seus moradores pobres, de seus usos cotidianos, de sua memória incômoda.
Essa dupla temporalidade, o presente perpétuo do catálogo e o passivo financeiro da ruína, instaura uma despossessão temporal que é também uma despossessão da experiência. Os moradores antigos que resistem nos bairros turistificados vivem um tempo espremido entre a memória do que a cidade foi e a angústia do que ela se torna. Os trabalhadores que cuidam da manutenção dos apartamentos do Airbnb experimentam o tempo fragmentado do trabalho precário, sem garantias, sem vínculos, sem futuro. Os hóspedes, por sua vez, consomem a cidade como se folheassem um catálogo, ignorantes das vidas que ali se desenrolam para além das fotos instagramáveis.
É nesse contexto que a noção de colonialismo digital ganha densidade empírica. Não se trata somente de extração de dados, mas de extração de futuros, a captura da capacidade de comunidades inteiras projetarem e construírem seus próprios destinos. Quando as pessoas não conseguem mais morar nos bairros onde sempre viveram, o que se perde para além da moradia, é a possibilidade de continuar sendo quem se é, de manter laços, de transmitir saberes, de habitar o tempo de outra forma.
Diante das luzes ofuscantes da cidade-catálogo, Georges Didi-Huberman (2011) nos convida a olhar para os vagalumes. Em sua leitura de Pasolini, os vagalumes representam as formas de resistência da cultura, do pensamento e do corpo diante das luzes ofuscantes do poder, da política, da mídia e da mercadoria. São pequenos lampejos, quase invisíveis, mas que teimam em existir nas brechas do sistema. Os vagalumes não enfrentam os projetores de frente, eles sobrevivem nas margens, na penumbra, no que resta quando as grandes luzes se apagam.
Nas cidades nordestinas, os vagalumes estão por toda parte, mas é preciso saber vê-los. Estão na feira do peixe do cais da Tavares de Lira, no Clube Frisson da Rua Chile, na Discol, no Sebo Vermelho da Rio Branco, nas escolas de samba das Rocas, no Canto do Mangue, na EDTAM e na Casa da Ribeira. Estão nos grafites nas paredes, nos movimentos de moradia que organizam ocupações para exigir o direito de ficar.
Esses vagalumes são sobrevivências, não no sentido de mera persistência, mas no sentido forte que Didi-Huberman toma emprestado do termo, a capacidade de continuar existindo apesar de tudo, de encontrar nas ruínas materiais e simbólicas da cidade as condições para uma vida digna. São imagens, não apenas no sentido visual, mas no sentido de configurações de sentido que carregam memórias, afetos, projetos. Cada vagalume urbano é uma imagem que resiste ao apagamento promovido pela cidade-catálogo.
A antropologia visual, nesse contexto, não pode contentar-se em documentar os vagalumes de fora. É preciso aprender com eles, deixar-se afetar por sua luz frágil, construir com eles formas de visibilidade que não os exponham demais, que não os transformem em novo produto para consumo. O contra-arquivo que proponho é, nesse sentido, uma tentativa de dar abrigo aos vagalumes ao criar condições para que suas imagens circulem sem serem capturadas pela lógica do catálogo, para que suas histórias sejam contadas sem serem folclorizadas, para que suas lutas ganhem visibilidade sem serem instrumentalizadas.
É aqui que a reflexão de Walter Benjamin (2012) sobre a imagem dialética se torna crucial para nosso percurso. Para Benjamin, a imagem dialética não é uma representação estática do passado, mas uma constelação em que o passado e o presente se encontram em um lampejo, produzindo um choque que pode despertar a consciência histórica. A imagem dialética não ilustra a história, ela a interrompe, a faz cintilar, a torna visível em sua complexidade e em sua urgência.
Na cidade-catálogo, as imagens dialéticas surgem nos lugares mais inesperados. Surgem quando se fotografa um prédio em ruínas na Ribeira e, ao revelar a imagem, percebe-se que alguém ainda mora ali, a despossessão e a resistência habitam o mesmo espaço. Essas imagens dialéticas são o que Benjamin chama de imagens do pensamento (Denkbilder), configurações que além de mostrarem, fazem pensar, que além de documentar, interrogam, e que não apenas registram o real, mas o tensionam em direção a possibilidades não realizadas. Elas nos permitem ver a cidade quer como catálogo ou como ruína, quer como campo de disputa, onde passado e presente se chocam e onde a memória e o esquecimento se enfrentam, onde a experiência vivida ainda é possível apesar de tudo.
Pois a questão central, diante da digitalização da vida e da governança algorítmica, se formula assim: ainda é possível sustentar uma experiência vivida da cidade no mundo contemporâneo? A experiência entendida no sentido forte que Benjamin (2012) lhe dá, não a mera vivência (Erlebnis), que passa sem deixar marcas, mas a experiência acumulada, transmitida, partilhada (Erfahrung), que tece a continuidade entre gerações e constitui a matéria da cultura, e que permita superar o horizonte capitalista de renovação e esgotamento incessantes num tempo de repetição.
A aposta deste ensaio é que sim, a experiência ainda é possível, mas é preciso buscá-la onde ela não parece estar. Não nos fluxos luminosos do catálogo, mas nas brechas, nas margens, nas ruínas onde os vaga-lumes acendem suas luzes frágeis. Não nos algoritmos que pretendem prever nossos desejos, mas nos encontros imprevisíveis que a cidade ainda proporciona a quem se dispõe a caminhar sem pressa, a observar, escutar e vivê-la. Nas imagens que emergem do encontro entre o olhar etnográfico e a vida concreta de sua gente.
A antropologia escrita com o outro é uma tentativa de cultivar essa experiência possível. Ao se construir narrativas em coletivo, contendo outras histórias da cidade, estamos afirmando que a experiência não foi totalmente capturada, e que ainda há tempo, espaço, e relação. Estamos, como aponta Benjamin (2012), escovando a história a contrapelo, não para restaurar um passado perdido, mas para abrir frestas no presente, para fazer cintilar as imagens dialéticas que podem nos ajudar a imaginar futuros diferentes.
O par dialético que mobilizei ao longo deste ensaio, ruínas da modernidade e cidade-catálogo, não é apenas uma ferramenta analítica, trata-se de um convite à ação. Neste sentido, ver as ruínas não como acidente, mas como produção, e, ao mesmo tempo, entender o catálogo não como promessa, mas como ameaça. Esse posicionamento já seria um primeiro passo para desnaturalizar os processos que nos atravessam e para abrir espaço para outras formas de habitar a cidade.
O que deixo, ao final deste ensaio, não é uma resposta, mas uma pergunta transformada em método: como construir, com as comunidades que habitam as ruínas e resistem ao catálogo, imagens que sirvam à sua luta por permanecer? Neste caminho, construir imagens que sirvam para mostrar a gestores e governos que a função social da propriedade não pode ser subordinada à lógica das plataformas e, de maneira semelhante, que sirvam para conectar lutas urbanas e rurais, do semiárido e do litoral, do Nordeste e do mundo. Enfim, imagens que sirvam para que as gerações futuras possam olhar para nosso tempo e não ver apenas a destruição, mas também as luzes frágeis que teimaram em acender. Essa é a aposta. E é também, acredito, a contribuição que podemos oferecer, à antropologia, à cidade, à vida.
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Arthur Leonardo de Lima Pereira é Cientista Social formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2016), Mestre (2023) e Doutorando em Antropologia Social pelo PPGAS/UFRN. Atualmente realiza estágio doutoral (PDSE/CAPES 2026) na Universitat Autònoma de Barcelona (UAB), integrando o Grup de Recerca en Antropologia Fonamental i Orientada (GRAFO). Pesquisador do Núcleo de Antropologia Visual (NAVIS/DAN-UFRN), dedica-se ao estudo das fotografias urbanas como instrumento para a construção de narrativas visuais. Sua produção acadêmica contempla publicações sobre cidade, memória e imagem, com especial atenção à cidade de Natal/RN, e sua investigação atual aborda os impactos do Airbnb e da financeirização da moradia em perspectiva comparada entre Barcelona e Natal.
Autoria: O autor é responsável pela coleta de dados, sistematização e síntese dos argumentos apresentados ao longo do texto, bem como por sua escrita.
Financiamento: Bolsita da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Recebido em: 02/12/2025
Aprovado para publicação em: 14/12/2025