Nietos restituidos: memoria, parentesco y política
Nietos restituidos: memory, kinship and policy
José Maycom da Silva Cunha
Universidade de São Paulo | São Paulo, SP, Brasil
maycon1cunha@gmail.com
MURILLO, Aline Lopes. Pessoas memoriais: práticas de parentesco e política na Argentina. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo; Facultad de Filosofía y Letras, Universidad de Buenos Aires, São Paulo, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.11606/T.8.2023.tde-15082023-121244
Palavras-chave: Antropologia; parentesco; memória; ditadura militar argentina.
A tese de doutorado Pessoas memoriais: práticas de parentesco e política na Argentina (2023), de Aline Lopes Murillo, apresentada em cotutela entre a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidad de Buenos Aires (UBA) em 2023, é uma importante contribuição à antropologia contemporânea ao articular memória, parentesco e política em torno das experiências de filhos e filhas de desaparecidos pela ditadura militar argentina (1976–1983). Trata-se de uma pesquisa agraciada com menção honrosa no “Prêmio Tese Destaque USP - 13ª Edição”, organizado pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP. O trabalho investiga as trajetórias das pessoas que, já na vida adulta, descobriram ter sido sequestradas quando bebês e criadas por famílias ligadas ao regime, tendo suas identidades biológicas adulteradas. Com base em extensa pesquisa etnográfica e documental, Murillo analisa como esses sujeitos, conhecidos como nietos restituidos, elaboram suas histórias pessoais e coletivas a partir da restituição de suas identidades, transformando-se no que denomina “pessoas memoriais” — seres que corporificam a memória e a resistência política. O estudo é exemplar em rigor metodológico e sensibilidade teórica, revelando como práticas de sangue, nomeação e narração produzem subjetividades e mundos sociais.Na introdução, a autora situa o contexto histórico e político da ditadura argentina, apresentando o “plan sistemático de apropiación de menores” — estratégia de sequestro e falsificação de identidades de filhos de militantes desaparecidos. A partir do trabalho da associação Abuelas de Plaza de Mayo, responsável pela busca e identificação desses jovens, Murillo delineia o campo de sua pesquisa: compreender como os nietos restituidos reconstroem vínculos familiares, identidades pessoais e narrativas históricas a partir da restituição da verdade biológica e simbólica. A autora propõe uma “lente pragmática” para observar as práticas narrativas, genéticas e políticas como ações que fazem e refazem pessoas, parentescos e memórias. O percurso metodológico inclui observação participante em tribunais, eventos públicos e museus de memória, foram realizadas doze entrevistas com nietos, além da análise de um vasto corpus audiovisual, documental e literário. A tese se estrutura em três partes — “O sangue”, “Os nomes” e “A palavra em ato” —, correspondentes às dimensões materiais e simbólicas da reconstrução identitária.
Na primeira parte, “O sangue: seus percursos, seus efeitos”, composta pelos capítulos 1 e 2, Murillo analisa o papel do DNA e das práticas biogenéticas na restituição de identidades. O primeiro capítulo, “Sembrar la verdad”, investiga a criação do Banco Nacional de Dados Genéticos e o desenvolvimento do chamado índice de abuelidad, técnica pioneira que permite identificar descendentes de desaparecidos por meio da compatibilidade genética com avós biológicos. A autora mostra como a biologia foi politizada, convertendo-se em instrumento de justiça e reparação simbólica. Inspirando-se em Claudia Fonseca e Bruno Latour, Murillo argumenta que o sangue, longe de ser mera substância biológica, é também operador social e moral, capaz de instituir verdade, pertencimento e justiça. No segundo capítulo, “Modos de reencontrar passados”, a autora examina as reações dos nietos diante da descoberta de suas origens. A restituição genética é descrita como experiência liminar que reorganiza biografias e redefine a relação entre o eu e o coletivo. O reencontro com a origem não apenas corrige documentos, mas inaugura um processo vital de reinterpretação da própria vida e da história do país. Nessa seção, Murillo evidencia como o conhecimento do sangue atua como catalisador de memórias, emoções e compromissos políticos.
A segunda parte, “Os nomes, os usos”, abrange os capítulos 3 e 4 e discute as práticas de nomeação como instrumentos de apagamento e reconstrução de identidades. No capítulo “Estratégias de apagamento (e seu avesso)”, a autora analisa o efeito simbólico e jurídico das mudanças de nome impostas às crianças apropriadas e a posterior restituição do nombre verdadero. Murillo explora o arquivo Nuestros Nietos, da Abuelas de Plaza de Mayo, que reúne minibiografias das crianças desaparecidas, revelando como os nomes funcionam como tecnologias de memória e de reconhecimento público. No capítulo seguinte, “Recomposições”, examina-se o poder performativo dos nomes no restabelecimento dos laços familiares e no reposicionamento político dos nietos restituidos. O nome, ao ser proferido e reinscrito nos documentos, adquire valor ético e afetivo: é ao mesmo tempo ferida e reparação. A autora demonstra que a restituição dos nomes é um ato político que desafia o esquecimento e reinscreve as vítimas no tecido social argentino.
A terceira parte, “A palavra em ato: formas de contar histórias”, composta por quatro capítulos, constitui o núcleo interpretativo da tese. Murillo examina as narrativas públicas dos nietos como práticas de subjetivação e militância. O capítulo “A arte de charlar em entrevistas” analisa as conversas realizadas pela autora com os participantes da pesquisa, compreendendo-as como performances discursivas nas quais memória e ensino se entrelaçam. As entrevistas, longe de simples relatos, tornam-se espaços de elaboração coletiva e de transmissão intergeracional da experiência política. Em “Narrando e ensinando com imagens”, Murillo analisa o documentário cênico de Claudia Poblete, produzido pela companhia catalã La Conquesta del Pol Sud, e interpreta a narrativa visual como dispositivo pedagógico e afetivo de reconstrução da identidade. O capítulo “Falar, incidir” descreve o discurso público de uma nieta em um ato político no antigo centro clandestino de detenção El Campito, demonstrando como a palavra pronunciada no espaço de memória transforma o local em território de resistência e reinterpretação histórica. Por fim, “A palavra, a imagem, a evidência” articula fala, corpo e presença nas visitas guiadas aos antigos centros de tortura, revelando a potência das narrativas corporificadas para a produção de provas sensíveis e emocionais da violência estatal. Essa seção consolida a tese central: as pessoas memoriais são aquelas cuja própria existência se converte em testemunho, mediando o passado e o presente através da linguagem e da ação.
Nas considerações finais, Murillo retoma a proposta de compreender os nietos restituidos como “pessoas memoriais” — sujeitos que, ao narrar suas experiências de sequestro, restituição e militância, produzem memórias compartilhadas e novas formas de parentesco político. A autora demonstra que sangue, nome e palavra são operadores simbólicos que articulam biologia, direito e narrativa na reconstituição de si e na reelaboração do trauma coletivo. Sua etnografia, marcada pela escuta atenta e pela escrita sensível, ilumina as intersecções entre memória individual e memória nacional, revelando como a Antropologia pode contribuir para pensar os processos de justiça transicional e de reconstrução democrática na América Latina. A importância da pesquisa reside em mostrar que a identidade não é apenas um dado biológico, mas um processo histórico, político e afetivo que se faz e refaz no encontro entre ciência, parentesco e memória.
José Maycom da Silva Cunha é professor e pesquisador. Bacharel em Ciências Sociais (2017) e Mestre em Antropologia Social (2020) pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Licenciado em Ciências Sociais (2023) e Especialista em Educação Inclusiva (2023) pela Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL). Doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Integra os grupos de pesquisa: Artes, Saberes e Antropologia (Coletivo ASA/USP); Gênero, Corpo, Saúde e Sexualidade (GCS/ UFRN); e, Religião, Artes, Materialidades e Espaços Públicos (MARES/UFRGS). Atua nas linhas de pesquisas A memória e suas artes; Corpo, gênero e Sexualidade; Arte Pública, Agenciamentos Políticos e Configurações Urbanas. Editor no Coletivo Editorial Fulor de Mulungu. Professor Substituto no Departamento de Antropologia e Sociologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Autoria: O autor é responsável pela coleta de dados, sistematização e síntese dos argumentos apresentados ao longo do texto, bem como por sua escrita.
Financiamento: Não especificado.
Recebido em: 16/12/2025
Aprovado para publicação em: 20/12/2025
CUNHA, José M. da S. Nietos restituidos: memória, parentesco e política. Cadernos Mulungu (online), vol. 1, n.1, jul.-dez., p. 1-4, 2025.