Filipe Campello da Rosa
Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre, RS, Brasil
filipecr21@gmail.com
Neste ensaio será analisada a construção discursiva articulada entre o Governo Municipal de Porto Alegre, as entidades empresariais gaúchas e a mídia hegemônica local, o grupo RBS, em torno da construção de Grandes Projetos Urbanos na capital, tendo como referência artigos de opinião destes agentes sobre política urbana como um todo e de quatro casos empíricos emblemáticos: a revitalização do Cais Mauá, a revitalização da Orla do Guaíba, a construção do Cestto Atacadista no Bairro Jardim Itú Sabará e a construção de um condomínio de luxo na Ponta do Arado, extremo sul da capital gaúcha. A partir da exposição e análise destes casos, buscam-se dois objetivos: compreender através de quais estratégias discursivas a narrativa hegemônica a respeito da construção dos Grandes Projetos Urbanos produz um efeito de verdade que legitima socialmente a existência das edificações; e apontar para a necessidade de se levar em conta na análise do discurso a imposição da materialidade nos processos de constituição discursiva e de estabilização de verdades.
palavras-chave: Grandes empreendimentos urbanos; desenvolvimento; teoria do discurso; mudanças climáticas.
Large Urban Developments and the Discursive Construction of the Hegemonic Power Bloc: An Analysis of the Porto Alegre Case
abstract: This essay analyzes the discursive construction articulated among the Municipal Government of Porto Alegre, business entities in Rio Grande do Sul, and the local hegemonic media, the RBS Group, around the development of Large Urban Projects in the city. The analysis draws on opinion articles produced by these actors about urban policy as a whole, as well as four emblematic empirical cases: the revitalization of Cais Mauá, the revitalization of the Guaíba Riverfront, the construction of the Cestto wholesale store in the Jardim Itú Sabará neighborhood, and the construction of a luxury condominium in Ponta do Arado, in the far south of the state capital. Based on the presentation and analysis of these cases, the essay pursues two objectives: to understand the discursive strategies through which the hegemonic narrative on the development of Large Urban Projects produces a truth effect that socially legitimizes the existence of these constructions; and to highlight the need to consider, in discourse analysis, the imposition of materiality in the processes of discursive constitution and the stabilization of truths.
keywords: Large Urban Developments; Development; Discourse Theory; Climate Change.
Grandes Emprendimientos Urbanos y la Construcción Discursiva del Bloque Hegemónico de Poder: Un Análisis del Caso de Porto Alegre
resumen: Este ensayo analiza la construcción discursiva articulada entre el Gobierno Municipal de Porto Alegre, entidades empresariales de Rio Grande do Sul y el medio hegemónico local, el Grupo RBS, en torno al desarrollo de Grandes Proyectos Urbanos en la ciudad. El análisis se basa en artículos de opinión producidos por estos actores sobre la política urbana en su conjunto, así como en cuatro casos empíricos emblemáticos: la revitalización del Cais Mauá, la revitalización de la orla del río Guaíba, la construcción de la tienda mayorista Cestto en el barrio Jardim Itú Sabará y la construcción de un condominio de lujo en Ponta do Arado, en el extremo sur de la capital del estado. A partir de la presentación y el análisis de estos casos, el ensayo persigue dos objetivos: comprender las estrategias discursivas mediante las cuales la narrativa hegemónica sobre el desarrollo de los Grandes Proyectos Urbanos produce un efecto de verdad que legitima socialmente la existencia de estas construcciones; y poner de relieve la necesidad de considerar, en el análisis del discurso, la imposición de la materialidad en los procesos de constitución discursiva y de estabilización de verdades.
palabras clave: Grandes Proyectos Urbanos; Desarrollo; Teoría del Discurso; Cambio Climático.
Desde 2015 a cidade de Porto Alegre é governada por um bloco político, econômico e midiático de poder que tem produzido uma “inflexão ultraliberal” (Soares; Fedozzi, 2018) nas políticas econômicas e urbanas na capital. A cidade, que antes foi conhecida como a capital do Fórum Social Mundial e do Orçamento Participativo, abandona suas raízes progressistas e caminha em direção a uma gestão empresarial do urbano, cuja expressão mais elaborada aparece no conceito de empreendedorismo urbano (Arantes, 2000). Trata-se da racionalidade neoliberal (Dardot; Laval, 2016) em sua faceta mais urbanizada, pois concebe as cidades não como totalidades integradas e vivas, destinadas aos seres humanos e à vida em comunidade, mas sim como espaços fragmentados e com diferentes potenciais de valorização financeiro-imobiliária a serem explorados.
Esta gestão empresarial do urbano pode ser visualizada na realidade empírica a partir do seguinte dado: nos últimos dez anos, foram construídos mais de cem empreendimentos caracterizados como Grandes Projetos Urbanos (GPU’S) em Porto Alegre (Sul 21, 2023). Trata-se de empreendimentos que contam com a atuação do capital privado, e possuem um projeto arquitetônico de grandes dimensões e de alto custo; sem falar da utilização de uma arquitetura “moderna”. Podemos, por fim, dizer que são empreendimentos estratégicos quanto à valorização do metro quadrado de uma região, almejando posteriormente a revitalização (Rodrigues, 2019).
Como dito, os GPU’S são projetos arquitetônicos de grandes dimensões. Isto significa que sua edificação provoca impactos sociais, territoriais e climáticos nas regiões em que são edificados. Se, em dez anos, foram construídos mais de cem destes grandes projetos em Porto Alegre, podemos questionar: que tipo de narrativa está sendo mobilizada pelo bloco hegemônico no poder para legitimar a construção intensiva de GPU’s frente, sobretudo, aos diversos tipos de impactos gerados por esses empreendimentos?
Para refletir sobre esta questão, serão analisados os discursos do poder público municipal, das entidades empresariais e da mídia hegemônica local à respeito da política urbana, assim como, quatro casos emblemáticos ocorridos em Porto Alegre, a saber: a revitalização do Cais Mauá, a revitalização da Orla do Guaíba, a construção do Cestto Atacadista no Bairro Jardim Itú Sabará e a construção de um condomínio de luxo na Ponta do Arado, extremo sul da capital gaúcha.
Utilizando os conceitos de exterior constitutivo e pontos nodais da teoria do discurso pós-fundacionista (Laclau; Mouffe, 2015), pretende-se compreender de que forma os discursos destes atores hegemônicos constituem uma unidade de sentido capaz de se transformar em uma verdade, mesmo que contingente e, por vezes, precária. Por fim, utilizando os casos e a análise realizada, esboçamos uma tentativa de aproximação teórica entre perspectivas realistas e construcionistas, refletindo, em especial, sobre a importância de considerarmos na análise do discurso, o peso que a materialidade tem na constituição e na manutenção das narrativas que se pretendem verdadeiras.
Antes de expor e analisar os casos, é preciso apresentar o referencial teórico metodológico utilizado. Como dito na introdução, a narrativa construída pelo bloco de poder hegemônico de Porto Alegre em torno, particularmente, dos empreendimentos urbanos será analisada a partir da Teoria do Discurso, em sua vertente pós-fundacionista. Trata-se, antes de mais nada, de uma perspectiva epistemológica que emerge em meados do século XX em contraposição ao fundacionismo e ao anti-fundacionismo. O primeiro caso diz respeito a todas as teorias sociais que partem de uma perspectiva realista ou idealista para analisar o social. Isto significa que, ao analisar a sociedade, busca-se descobrir como ela “de fato é”, como ela “de fato funciona”. Trata-se, portanto, de investigar os fundamentos últimos que constituem a realidade social, a sua essência constitutiva – o positivismo lógico, a metafísica e o estruturalismo clássico são exemplos dessa perspectiva (Marques, 2020).
Do outro lado, temos o anti-fundacionismo, buscando negar a existência de fundamentos que constituem o real, e caminha em direção ao construtivismo extremo, quando diz: a realidade em si não existe. Não haveria, portanto, nenhum tipo de fundamento possível. Tudo nada mais seria do que construções – seria esse um fundamento?
Em contraposição a estas duas perspectivas, o pós-fundacionismo se encontra na justa medida entre elas. A realidade existe, mas nunca pode ser definida em sua essência, apreendida em sua totalidade. Entretanto, isto não quer dizer que fundamentos a respeito dela não possam ser construídos e estabilizados em um dado contexto sócio-histórico. O que é entendido como realidade, portanto, é o conjunto de fundamentos construídos e estabilizados ao ponto de se tornarem verdades (sociais) objetivas. Assumir que os fundamentos são construídos significa dizer que eles são históricos e, consequentemente, contingentes e precários. Neste cenário, o objetivo da análise sociológica deixa de ser a descoberta ou a negação de fundamentos, e passa à investigação de como estes fundamentos são construídos e estabilizados sócio-historicamente ao ponto de pautarem o que chamamos de realidade (Marques, 2020).
Para o pós-fundacionismo, fundamentos são discursos em relação à realidade. Um discurso, por sua vez, é uma unidade de sentido (Laclau; Mouffe, 2015). Ou seja, a todo momento estamos significando o mundo. É a maneira como o apreendemos, dando-lhe sentido. Em dado momento, um conjunto de significações dispersas em torno de um fenômeno passam a se articular, de maneira a criar uma narrativa comum, mais ou menos coesa. Essa narrativa comum é uma unidade de sentido, portanto, um discurso.
Ao formar uma unidade de sentido por um grupo particular, os agentes que compõem esta rede passam a disputar com outros grupos, que possuem outras unidades de sentido particulares em torno do mesmo fenômeno. Nesta disputa ganha o grupo que conseguir universalizar o seu discurso. Ou seja, torná-lo uma verdade, um fundamento em relação ao fenômeno disputado. Quanto menos questionável se torna o fundamento, mais ele se estabiliza. Quanto mais se estabiliza, mais efeito de verdade ele produz sobre o fenômeno que descreve. Menos alternativas discursivas se apresentam como possibilidade, portanto. Este processo de estabilização é chamado por Laclau e Mouffe (2015), principais expoentes do pós-fundacionismo, de sedimentação. Em contrapartida, quando um discurso sedimentado – fundamento – passa a ser questionado, e o questionamento ganha força na sociedade, há um momento de reativação, em que se evidencia o caráter contingente e precário de todo fundamento.
Disto podemos tirar o primeiro grande encaminhamento: a construção, sedimentação e reativação de fundamentos são produto de relações sociais de poder, na medida em que os diversos agentes e grupos sociais estão, a todo instante, numa constante disputa para universalizar seus significados particulares a respeito do mundo. Sendo assim, surge o questionamento: como é possível analisar, sob a perspectiva apresentada, a construção, sedimentação e reativação de fundamentos? Se, como dito, este processo é uma disputa discursiva entre grupos, significa dizer que se trata de uma análise sobre um conflito. Sendo assim, é preciso identificar quais são os grupos da disputa, de que forma estão se articulando para produzir seus discursos e de que condições objetivas dispõem para os hegemonizar.
As estratégias de articulação são o ponto-chave na Teoria do Discurso. Como dito, o discurso, sendo uma unidade de sentido, é formado por fragmentos discursivos – significações dispersas a respeito de um fenômeno. Articulação desses fragmentos em um dado momento sócio-histórico não é necessariamente a coerência lógica entre eles, mas sim o que Laclau e Mouffe (2015) chamam de exterior constitutivo: um inimigo ou adversário comum entre os fragmentos. Isto porque, mais do que uma coerência lógica entre os fragmentos, o que os garante uma identidade é uma negatividade exterior, que os constitui de fora para dentro. Algo como: “nós somos nós porque não somos eles”. Nesse sentido, muitas vezes um grupo discursivo não tem interesse que seu inimigo/adversário seja eliminado, pois, caso fosse, ele perderia a sua razão de ser.
O processo de articulação entre os fragmentos, ou seja, sua prática articulatória, para a constituição deste inimigo comum e, portanto, para a constituição da identidade do grupo, só é possível a partir do que Laclau e Mouffe (2015) chamam de pontos nodais. Trata-se de “significantes-referência”, ou seja, palavras que conseguem carregar uma gama de significados suficiente para abarcar todos os fragmentos discursivos. Ao fazer isso, se transformam em pontos de encontro dos diferentes significados de cada fragmento, garantindo a articulação entre eles. O conjunto destes pontos nodais permite a unidade de sentido, de forma que seja possível construir um inimigo comum, o exterior constitutivo, que constituirá a identidade do discurso.
Ao analisar o discurso bolsonarista, por exemplo, vemos que “família”, “tradição”, “democracia”, “bandido bom é bandido morto” são significantes dispersos bastante utilizados. Eles ganham coesão a partir de significantes-referência (pontos nodais) como “anti-petismo” ou “anti-esquerdismo”. Ou seja, através destes pontos de referência, os significantes dispersos utilizados se articulam, se conectam, garantindo-lhes certa coesão – uma unidade de sentido. Ao mesmo tempo, estes pontos nodais produzem e são produzidos pelo exterior constitutivo do bolsonarismo, representados pelo PT, o petismo e o comunismo. Constrói-se assim, o que comumente chamamos de “discurso bolsonarista”, que pode ser expresso em algo como: “somos bolsonaristas porque não somos petistas” (exterior constitutivo); ou ainda “somos anti-petistas (ponto nodal - significante referência), porque eles são contra a “família”, “tradição” etc.” (significantes dispersos).
Quanto mais diversas forem as significações dos fragmentos em articulação, mais amplos e genéricos precisam ser os significantes-referência – pontos nodais –, justamente para garantir que todas as significações estejam inseridos na unidade discursiva que está sendo construída.
A partir do referencial teórico-metodológico apresentado, nossa análise começa com dois artigos de opinião publicados na Zero Hora, jornal pertencente ao Grupo RBS. O primeiro, um artigo intitulado “Integração para o desenvolvimento das cidades”, escrito por Liliane Dutra, CEO do Carrefour Property. Nele, a empresária defende que as empresas seriam aliadas fundamentais no desenvolvimento das cidades, e que através de um engajamento responsável, estariam contribuindo para expandir as regiões em que atuam, atraindo melhorias de mobilidade e conectando pessoas. Em dado momento do artigo, Liliane nos diz:
Quando grandes empresas escolhem uma cidade, trazem consigo prosperidade, inclusão e sustentabilidade. Mais do que áreas comerciais ou de serviços, são centros de convivência e interação social, que transformam espaços em oportunidades para melhorar a vida das pessoas e desenvolvem as regiões onde estão inseridas (GZH, 2025)
O segundo artigo de opinião, intitulado “Mais do que consumo, espaços de conexão e lazer”, foi escrito por Vander Giordano, vice-presidente institucional da Multiplan. Vander Giordano defende que os Shoppings seriam “protagonistas da vida urbana”, na medida em que reconfiguram a região em que são construídos, tornando-se grandes pontos de encontro. Em dado momento, diz:
Os shoppings tornaram-se verdadeiros protagonistas da vida urbana, especialmente no Brasil, ao longo dos anos. São pontos de encontro, lazer, cultura, arte, gastronomia e, ainda, vetores de crescimento socioeconômico, funcionando como espaços multiuso que atendem às necessidade de cidades em constante transformação (GZH, 2025)
O shopping passou a ser “vizinhança”, sua instalação implica também em melhorias viárias, na revitalização e urbanização de regiões – como ocorreu com a chegada do Barra Shopping Sul e do Park Shopping Canoas – com moradias nas áreas adjacentes, serviços e ações estruturantes para a cultura, a educação e até a saúde das comunidades, além de impulsionar novos empregos. Somente no setor são gerados mais de 1 milhão diretamente (GZH, 2025)
Se observarmos com atenção, as falas de Liliane, CEO do Carrefour, e de Vander, vice-presidente institucional da Multiplan, possuem diversos elementos em comum. Ambos os fragmentos discursivos partem da mesma premissa quando significam o urbano e seu desenvolvimento: as grandes empresas e empreendimentos seriam aliados da cidade. Essa premissa em comum pode ser explicada pelo fato de Liliane e Vander serem indivíduos que fazem parte do mesmo grupo econômico: o grande empresariado local. O conteúdo de suas significações, portanto, está de acordo com os interesses do grupo que representam.
Dito isso, vamos olhar mais de perto para a construção de cada fragmento. Para Liliane, as grandes empresas são aliadas das cidades porque, ao se instalarem nelas, trazem consigo prosperidade, inclusão, sustentabilidade, oportunidade de melhoria de vida e desenvolvimento para a região. O que realmente está sendo dito é que as grandes empresas trazem consigo estrutura urbana, emprego-renda e espaços de convivência . Para Vander, por sua vez, shoppings são “vetores do crescimento socioeconômico”, que, vindo para a cidade, geram novos empregos, melhorias viárias e acesso à cultura, à saúde e à educação. Da mesma forma, o que está sendo dito aqui é que a vinda dos Shoppings trazem consigo um conjunto de melhorias urbanas que, em grande medida, são elementos que se conectam aos significantes-referência “desenvolvimento”, “progresso”, “modernização” e “transformação”.
Ou seja, para que cada fragmento discursivo consiga se legitimar, não é preciso que eles utilizem necessariamente os significantes-referência descritos, basta falarem em “criação de empregos”, “acesso à...” ou utilizarem expressões como “prosperidade” e “inclusão” que já garantem a associação, mesmo que implícita, a estes significantes. E é justamente a partir desta associação implícita que a articulação entre os fragmentos de Vander e Liliane se dá. “Desenvolvimento”, “progresso”, “modernização” e “transformação” são os pontos nodais que garantem o ponto de encontro entre os fragmentos, de forma que seja possível dizermos: “um está falando de grandes empresas, o outro está falando de Shoppings, mas ambos estão falando da mesma coisa”.
Com isso não estou dizendo que os fragmentos de Vander e Liliane tenham criado os pontos nodais “desenvolvimento”, “progresso”, “modernização” e “transformação”. Na verdade, estes significantes estão associados historicamente a um discurso legitimador da expansão do capitalismo a nível internacional (Escobar, 2007). O que ocorre aqui, a nível local, é a utilização, pela Liliane e pelo Vander, destes significantes já estabilizados, para legitimarem as suas práticas. Ao fazerem isso, estão construindo uma prática articulatória entre si, mesmo que sem a intenção deliberada de fazê-lo.
A partir da análise destes casos ilustrativos, já identificamos os pontos nodais que articulam os fragmentos discursivos defensores da vinda de grandes empresas e empreendimentos na cidade: esta vinda é sinônimo de “desenvolvimento”, “progresso”, “modernização” e “transformação” – que, implicitamente, são sinônimos de melhoria das infra-estruturas urbanas, de geração de emprego e renda e de construção de espaços urbanos de sociabilidade.
Feito isso, o que nos falta agora é compreender o que unifica estes fragmentos. Qual o elemento que, a partir dos pontos nodais, garante a formação de uma unidade de sentido (discurso) destes fragmentos discursivos
Aqui entramos na análise de mais um artigo de opinião e de uma matéria jornalística propriamente dita. O artigo, intitulado “Cais Mauá é o exemplo do jeito gaúcho de resistir”, é escrito por Rosane Oliveira, jornalista e colunista da Zero Hora. Nele, Rosane aborda as resistências da sociedade civil contra o projeto de revitalização do Caís Mauá. Em dado momento, diz:
O Rio Grande do Sul é um estado que se orgulha de suas tradições (o que é ótimo), mas tem uma incrível vocação para viver do passado (...) Os românticos porto- alegrenses cochilaram à época em que se discutiu o projeto de revitalização do Cais Mauá e não conseguiram evitar a realização da licitação e a assinatura do contrato. Eis que agora, quando o Estudo de Impacto Ambiental está pronto e a fase de licenciamento se encaminha para o desfecho, um grupo se mobiliza para começar tudo de novo. São pessoas bem-intencionadas, de respeitável formação intelectual, mas que parecem não ter se dado conta de que os tempos mudaram (GZH, 2015).
A matéria jornalística, por sua vez, foi escrita por Jocimar Farina e se intitula “Com críticas a ‘caranguejos’, orla do Guaíba, em Porto Alegre, é reinaugurada oficialmente”. Na cerimônia de inauguração, o então prefeito Nelson Marchezan faz a seguinte fala:
Inovar, mudar, fazer reforma sempre dói. E sempre tem caranguejo nesse caminho. A escolha é: estaremos com os caranguejos ou estaremos com os inovadores, que fazem a mudança de nossa cidade? As mudanças na Câmara obviamente terão os contrários, que não representam o futuro da cidade. Quero agradecer à sociedade civil organizada, que está se posicionando a favor de Porto Alegre — afirmou, referindo-se ao apoio manifestado por entidades empresariais (GZH, 2018)
O que presenciamos nestas duas falas nada mais é do que a construção de um exterior constitutivo – os “caranguejos” ou os “gaúchos românticos”. Como dito, os significantes “desenvolvimento”, “progresso”,“modernização” e “transformação” são os pontos nodais dos fragmentos pró grandes empreendimentos. Os indivíduos e/ou grupos que se utilizam desses significantes se colocam como agentes do progresso. Entretanto, a existência destes agentes só faz sentido se, do outro lado, existir agentes do atraso. Neste contexto, o que transforma os fragmentos discursivos pró-empreendimentos em uma unidade de sentido, ou seja, em um discurso, é justamente a criação de uma dicotomia entre aqueles a favor do futuro da cidade e aqueles contra, entre os a favor do progresso e os a favor do atraso, entre os a favor dos grandes empreendimentos e os contra.
O ponto-chave desta construção discursiva, ou seja, a sua capacidade de produzir um efeito de verdade, são as associações implícitas que produz. Vejamos a linha de raciocínio produzida por este discurso: fulano é a favor da construção de um grande empreendimento. Fulano, portanto, defende o desenvolvimento. Fulano, portanto, defende a melhoria da infra estrutura urbana, a geração de emprego e renda e a produção de pontos de convivência. Fulano, portanto, é a favor do futuro da cidade. Do lado de fora, temos: Ciclano é contra a construção de um grande empreendimento. Ciclano, portanto, defende o atraso. Ciclano, portanto, é contra a melhoria da infra-estrutura urbana, da geração de emprego e renda e da produção de pontos de convivência. Ciclano, portanto, é contra o futuro da cidade.
Ou seja, a eficácia deste discurso é conseguir associar de imediato os grupos contra a construção de empreendimentos como o exterior constitutivo do progresso, vulgo “agentes do atraso”. E esta associação, por sua vez, só é possível porque há uma associação implícita entre os grandes empreendimentos e o progresso e entre o progresso e a melhora das condições de vida urbana.
No fim das contas, o que todos os moradores de uma cidade querem é a melhora das condições de vida urbana. O que o discurso analisado nos diz é que a única maneira de garantir estas melhoras é através de parcerias com a iniciativa privada para a construção de grandes empreendimentos. Afinal, como diz Rosane de Oliveira, no seu artigo de opinião sobre os “gaúchos românticos” e o Caís Mauá:
Ainda vivemos como se houvesse dinheiro farto nos cofres públicos para Não precisar da iniciativa privada (...) Em um mundo ideal, o poder público faria a reforma dos armazéns e ali instalaria equipamentos culturais gratuitos ou lojinhas de artesanato para a população usufruir. No mundo real, a prefeitura e o Estado não têm dinheiro nem para garantir saúde e educação de qualidade para as crianças. Repassar o Cais Mauá para um investidor privado reformar os armazéns e explorar todo o complexo foi a saída encontrada para que os porto-alegrenses e turistas possam usufruir dessa área que está abandonada há décadas (GZH, 2015).
Ou seja, no “mundo real”, não há alternativa. Ou nos apegamos ao passado (negatividade exterior) e preservamos ou aceitamos as novas condições para construir um futuro.
Entretanto, nos últimos dois anos, os impactos sócio-ambientais gerados por este modelo de desenvolvimento, cuja construção de grandes empreendimentos faz parte, vêm se impondo, evidenciando os limites desse “projeto de futuro, de inovação e de transformação”. Os ciclones extratropicais ocorridos no RS em 2023 (CNN Brasil, 2023), as ondas de calor com sensação térmica de 60 graus vivenciadas nos últimos verões (Instituto Humanitas Unisinos, 2023), as enchentes de maio 2024 (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, 2025) e as recentes chuvas que rapidamente alagaram de novo a região das ilhas e bairros como Sarandi (Correio do Povo, 2025) tem suscitado o seguinte questionamento: com a construção de mais e mais empreendimentos estamos de fato caminhando para o futuro ou para o precipício? À medida que mais eventos climáticos severos acontecem, maior tende a ser a força social deste questionamento, o que pode produzir um processo de reativação do discurso pró empreendimentos que há tempos está sedimentado.
Para além das novas possibilidades discursivas que a iminente reativação do discurso hegemônico pode produzir, o que me chama a atenção neste processo é o papel que as mudanças climáticas estão desempenhando na construção discursiva. Chuva, vento, ciclones e enchentes são fenômenos extremamente objetivos, materiais, que ocorrem independentemente dos fundamentos que constituem o nosso real. Ocorrem mesmo se nossos fundamentos socialmente construídos os neguem. E mais do que isso, esses fenômenos se impõem sobre os fundamentos, que, para se manterem sedimentados, precisam lidar com essa materialidade.
É o que venho presenciando nas falas mais recentes do empresariado gaúcho. Cláudio Zaffari, diretor do Grupo Zaffari, em entrevista à Zero Hora, é perguntado sobre o corte de árvores realizado para a construção do Cestto Atacadista no Bairro Itú Sabará:
Nós vamos preservar mais do que tinha antes, só que as pessoas não sabem. Essa preocupação é nossa primeiro, a vegetação é qualidade, qualidadede vida, então nós vamos preservar no local... o local todo ali que a companhia acabou desenvolvendo o projeto do loteamento é 500 mil metros quadros. Desses 500 mil metros quadrados, 100 mil serão preservados. Onde tem características específicas (...) A gente tem que entender que a cidade se desenvolveu para aquela região. E nós temos que adensar aquela região pra aquelas pessoas não sigam em outro espaço e façam o desmatamento impróprio. Então nos ‘tamos’ fazendo a supressão necessária, controlada, preservando 100 mil metros de área (GZH, 2025).
Seguindo nesta mesma linha, a empresa Arado Empreendimentos, quando questionada sobre a construção de um condomínio de luxo em área de grande diversidade biológica no extremo sul da capital, responde:
A Arado Empreendimentos garante que 228 dos 426 hectares da área serão preservados e afirma que, em parte do espaço, haverá uma Reserva Particular do Patrimônio Natural de 91 hectares, com o objetivo de conservar a diversidade biológica do local. A empresa diz que pretende regrar a visitação para garantir o respeito ao ambiente (GZH, 2018).
O que estamos presenciando aqui é uma mudança na estratégia de legitimação do discurso. Há pouco tempo na capital, não era necessário falar em preservação para legitimar a construção de um empreendimento. Atualmente, isto tende a ser de extrema importância. Não só pelo fato dos “gaúchos românticos” e dos “caranguejos” estarem tensionando o efeito de verdade do discurso hegemônico, mas principalmente porque os eventos climáticos, ou seja, a materialidade, está amplificando este tensionamento, de forma a não ser mais possível ignorá lo. Por isto, caso o discurso pró-empreendimento queira continuar hegemonizando o significado de “melhora das condições de vida urbana”, precisa necessariamente dialogar com a materialidade.
E aqui está o ponto central deste debate: este exemplo apresentado mostra a importância da Teoria do Discurso também dialogar com a materialidade, caso queira entender como de fato está se dando as construções discursivas em cada contexto. Para isso, é preciso que se entenda a realidade não só enquanto um conjunto de fundamentos simbolicamente construídos, mas também enquanto um conjunto de elementos objetivos, materiais, que impõe aos agentes limites e possibilidades para a produção do efeito de verdade.
Neste ensaio buscou-se analisar a construção discursiva produzida na articulação entre as entidades empresariais gaúchas, o Governo Municipal de Porto Alegre e a mídia hegemônica local, Grupo RBS, em torno da construção de grandes empreendimentos imobiliários na cidade. Em suma, a produção deste discurso ocorre por meio de um conjunto de fragmentos discursivos pró-empreendimentos que, ao associarem esses projetos à “melhora das condições de vida urbana”, articulam-se através dos pontos nodais “desenvolvimento”, “progresso”, “modernização” e “transformação”, produzindo e sedimentando o seguinte fundamento: ser a favor da construção de grandes empreendimentos é ser a favor do progresso e, portanto, do futuro da cidade.
A unidade de sentido se completa pela construção de um exterior constitutivo, os “caranguejos” ou “gaúchos românticos”, entendidos como um conjunto de grupos e de indivíduos que, ao se colocarem contra os grandes empreendimentos, tornam-se agentes do atraso e, portanto, agentes que são contra o futuro da capital gaúcha.
Por fim, é debatido como os eventos climáticos extremos vividos em Porto Alegre nos últimos anos estão desestabilizando o efeito de verdade do discurso hegemônico, tornando cada vez mais difícil um discurso sobre a construção de um grande empreendimento se legitimar sem falar em “preservação ambiental”. Trata-se de um caso que aponta para a necessidade sociológica de superarmos a dicotomia “real” versus “construído” e percebermos a realidade social enquanto um conjunto de fundamentos que se constituem na articulação entre os elementos objetivos/materiais de um lado e os simbólicos de outro. Algo que só é possível por meio de um exercício mais intenso de aproximação teórica entre princípios epistemológicos realistas e construcionistas, assimilando as convergências e superando as diferenças, de forma que seja possível compreender os fenômenos sociais em sua totalidade.
Agência Nacional das Águas e Saneamento Básico – ANA. Estudo aponta que enchentes de 2024 foram maior desastre natural da história do RS e sugere caminhos para futuro com eventos extremos mais frequentes. Gov.br, Brasília, 30 abr. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias/estudo-aponta-que-enchentes-de-2024-foram-maior-desastre-natural-da-historia-do-rs-e-sugere-caminhos-para-futuro-com-eventos-extremos-mais-frequentes. Acesso em: 07 jul. 2025.
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Filipe Campello da Rosa é licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e atualmente é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) pela mesma instituição. É pesquisador do Grupo de Pesquisa em Sociologia Urbana e Internacionalização das Cidades (GPSUIC), coordenado pela Professora Doutora Vanessa Marx. Trabalha com temáticas relacionadas à financeirização do mercado imobiliário em Porto Alegre (RS), mais especificamente na relação entre os grandes empreendimentos imobiliários e os agentes de diversas escalas sócio-geográficas que os viabilizam. Além disto, é professor de Sociologia em Cursinhos Populares de Pré-Vestibular, atualmente lecionando no CEUE-PV, coordenado pelo Centro dos Estudantes Universitários de Engenharia da UFRGS.
Autoria: O autor é responsável pela coleta de dados, sistematização e síntese dos argumentos apresentados ao longo do texto, bem como por sua escrita.
Financiamento: Não especificado.
Recebido em: 05/12/2025
Aprovado para publicação em: 16/12/2025
ROSA, Filipe Campello da. Grandes empreendimentos urbanos e a construção discursiva do bloco hegemônico de poder: uma análise do caso porto-alegrense. Cadernos Mulungu (online), vol. 1, n.1, jul.-dez., p. 1-14, 2025