José Maycom da Silva Cunha
Universidade de São Paulo| São Paulo SP, Brasil
maycon1cunha@gmail.com
Este ensaio emerge de um conjunto de problematizações suscitadas pelo evento “Cidade em Disputa: Transições Energéticas e Financeirização do Urbano” (2025), dedicado a refletir sobre as transformações em curso nos territórios urbanos e rurais do Rio Grande do Norte. Tomamos como ponto de partida dois eixos centrais: por um lado, a expansão dos projetos de energias renováveis; por outro, a financeirização do espaço urbano mediada por plataformas digitais. A partir de uma abordagem deliberadamente interdisciplinar, sustentamos a hipótese de que o elo profundo entre esses dois fenômenos não se encontra apenas em suas formas materiais, mas sobretudo em sua dimensão temporal — o “tempo” como categoria estruturante da modernidade e lógica fundamental do capitalismo contemporâneo.
palavras-chave: Modernidade; temporalidade; financerização; energias renováveis; plataformas digitais.
From the hinterland to the city: fantasmagoria and the insatiable hunger of modernity
abstract: This essay emerges from a set of questions raised during the event “City in Dispute: Energy Transitions and the Financialization of the Urban” (2025), which aimed to reflect on ongoing transformations across urban and rural territories in Rio Grande do Norte. We take as our point of departure two central axes: on the one hand, the expansion of renewable energy projects; on the other, the financialization of urban space mediated by digital platforms. Through a deliberately interdisciplinary approach, we argue that the deeper link between these two phenomena lies not only in their material configurations but, above all, in their temporal dimension —Time as a structuring category of modernity and a fundamental logic of contemporary capitalism.
keywords: Modernity; temporality; Financialization; Renewable energies; Digital platforms.
Del sertón a la ciudad: la fantasmagoría y el hambre insaciable de la modernidad
resumen: Este ensayo surge de un conjunto de problematizaciones formuladas durante el evento “Ciudad en Disputa: Transiciones Energéticas y Financiarización de lo Urbano” (2025), dedicado a reflexionar sobre las transformaciones en curso en los territorios urbanos y rurales de Río Grande del Norte. Partimos de dos ejes centrales: por un lado, la expansión de los proyectos de energías renovables; por otro, la financiarización del espacio urbano mediada por plataformas digitales. A partir de un enfoque deliberadamente interdisciplinario, sostenemos la hipótesis de que el vínculo profundo entre ambos fenómenos no se encuentra solo en sus configuraciones materiales, sino, sobre todo, en su dimensión temporal: el tiempo como categoría estructurante de la modernidad y como lógica fundamental del capitalismo contemporáneo.
palabras clave: Modernidad; temporalidad; Financiarización; Energías renovables; Plataformas digitales.
Este ensaio é uma reação ao evento “Cidade em Disputa: Transições Energéticas e Financeirização do Urbano”, realizado no dia 18 de outubro de 2025 no evento “Outubro Urbano”, promovido pelo coletivo Fulor de Mulungu e pelo ONU-Habitat, e que se propôs a refletir sobre as transformações em curso nos territórios urbanos e rurais do Rio Grande do Norte, a partir de dois eixos centrais: de um lado, a expansão das chamadas energias renováveis; de outro, a financeirização do espaço urbano mediada por plataformas digitais.
Na primeira conferência, com Leonardo da Rocha Bezerra de Souza, foi proposto investigar as contradições da transição energética no semiárido potiguar. A partir de experiências vividas em pequenos municípios, discutiremos os efeitos da instalação de usinas solares e eólicas sobre modos de vida tradicionais, sobre o campo e as cidades, sobre a paisagem e o direito à permanência nos territórios.
Na segunda conferência, com Arthur Leonardo de Lima Pereira, o foco recai sobre o avanço de plataformas como o Airbnb em áreas centrais e litorâneas de Natal. Essa dinâmica evidencia o tensionamento entre a função social da propriedade e o avanço da turistificação e da especulação imobiliária. A partir da antropologia urbana e de cartografias visuais, vamos refletir sobre as ruínas, as fragmentações e as reconfigurações simbólicas da cidade sob a lógica do capitalismo de plataforma.
O tema é, antes de tudo, um sintoma do tempo em que vivemos — um tempo atravessado por forças políticas, sociais e culturais que redefinem nossas formas de habitar o mundo. Ao entrelaçar essas duas frentes, o evento propõe um olhar atento e situado sobre os desafios contemporâneos da urbanização no Nordeste, afirmando a urgência de políticas que coloquem no centro os direitos coletivos, a justiça territorial e a sustentabilidade como prática concreta — e não como promessa vazia.
Ovídio narra, nas Metamorfoses (especificamente no livro VIII, versos 738-878), a história de Erisícton, rei da Tessália cuja ganância desmedida e irreverência para com os deuses o conduziram à ruína. Explorador implacável dos recursos naturais de seu reino, Erisícton chegou ao extremo de profanar um bosque sagrado dedicado à deusa Ceres (Deméter, na tradição grega), divindade da agricultura e da abundância. Nesse bosque encontrava-se um carvalho antiquíssimo, venerado pela deusa; ainda assim, o rei, insensível ao caráter sagrado do lugar, derrubou todas as árvores, incluindo o venerado carvalho.
A afronta despertou a cólera de Ceres, que, para punir o soberano ímpio, ordenou à deusa Fome (Éton) que se instalasse em seu corpo. Assim se cumpre o castigo. Fome envolve Erisícton em seu abraço e o marca com um beijo funesto, infundindo-lhe um apetite incessante. A partir de então, o rei passa a devorar tudo o que encontra, dilapida sua fortuna em busca de alimento e consome os recursos do reino inteiro, sem jamais alcançar a saciedade. Ovídio sintetiza tal tormento nestes versos:
[…] quanto mais lhe for dado
mais ele quer, e, com isso, mais voraz ele fica,
dessa forma a boca de Erisícton profano
toma e exige tudo que é ceia: todo alimento
causa mais fome, e, sempre comendo, só gera o vazio.
(Met, VIII, 838-842)
A voracidade crescente chega a tal ponto que Erisícton, em desespero, vende a própria filha para obter mais comida — mas em vão, pois sua fome apenas se intensifica. No auge da desmedida necessidade, reduzido a nada, volta-se contra si próprio e começa a devorar o próprio corpo, consumindo, um a um, os seus membros.
A imagem é poderosa. Mais do que um mito moralizante, ela nos aproxima do que poderíamos chamar de ontologia moderna do consumo: um sistema que cria incessantemente a falta, que transforma o desejo em carência e a carência em motor de acumulação. Erisícton é, nesse sentido, um símbolo do capitalismo contemporâneo: autofágico, como diria Anselm Jappe (2019). Um sistema que consome aquilo que ele mesmo produz — e, ao final, consome a si próprio.
Essa metáfora será importante adiante, quando observarmos como, no sertão e na cidade, o capitalismo atual produz um regime de fome permanente: por energia, por velocidade, por dados, por lucro, por turistas, por crescimento. Uma fome que não se sacia, porque sua lógica estrutural é justamente não permitir que a saciedade chegue.
Quer examinemos os impactos das energias renováveis no interior, quer consideremos os efeitos quase espectrais das plataformas digitais nas cidades, encontramos, em ambos os casos, um mesmo fio condutor: o tempo. Nas regiões interioranas, os projetos de energia renovável convocam sempre um futuro projetado, uma promessa de modernização que paira como horizonte. Nas cidades, ao contrário, as plataformas digitais instauram um presente contínuo, vertiginoso, que se renova a cada atualização e nos captura em um regime de instantaneidade. Em cada cenário, o discurso do progresso e do desenvolvimento atua como um espelho que reflete e distorce: a imagem da modernidade que ali se revela é atravessada por tensões, assimetrias e ausências. É a modernidade como processo que promete integração, mas que tantas vezes produz desencontros, fragmentações e deslocamentos.
A temporalidade moderna opera como um espelho que reflete e distorce simultaneamente. Ela promete integração, progresso, desenvolvimento; contudo, produz desencontros, fragmentações e deslocamentos. Os territórios interioranos, reconfigurados pela instalação de turbinas eólicas e placas solares, passam a experimentar um hiato entre o tempo vivido e o tempo prometido. As cidades, submetidas à lógica das plataformas, experimentam outra fricção temporal: a obsolescência acelerada, o agora permanente, a saturação do presente. Em ambos os cenários, o tempo deixa de ser fluxo contínuo de experiência e se torna mecanismo de ordenação econômica, regulador da vida e instrumento de captura.
Esse caráter “fantasmagórico” da modernidade encontra ressonância no pensamento de Jacques Derrida, especialmente em Espectros de Marx (1994), ao realizar uma leitura da célebre declaração de Hamlet: “the time is out of joint”, “o tempo está fora dos eixos”. Para Derrida, um espectro não corresponde à figura comum do fantasma; trata-se de uma estrutura temporal paradoxal, na qual o que deveria estar no passado retorna, o que pertence ao futuro se antecipa e o presente se esvazia de presença plena. O espectro não é pura ausência nem presença total, mas a coexistência inquieta de ambas. Ele opera fissuras no tempo linear, perturba a continuidade histórica, evidencia lacunas na experiência.
Sob essa lente, a modernidade — tanto no sertão quanto na cidade — aparece como tempo deslocado. O presente é atravessado por presenças ausentes, como promessas de desenvolvimento que não se cumprem, e por ausências muito presentes, como desigualdades que seguem reverberando. O passado ressurge sob novas roupagens, enquanto futuros supostamente inevitáveis se impõem antes mesmo de se concretizarem. É nesse entremeio, nessa desarticulação temporal, que se configura a fantasmagoria moderna: um regime temporal composto de espectros, de latências, de vazios e de insistências. A modernidade proclama movimento, mas produz suspensões; proclama clareza, mas opera com zonas de sombra; proclama plenitude, mas engendra ausências.
A transição energética no Brasil, sobretudo no Nordeste, torna essa estrutura espectral mais evidente. A região destaca-se como protagonista da descarbonização nacional devido à abundância de ventos, luminosidade, e uma longa faixa litorânea apta à expansão da energia eólica offshore. Os estados do Rio Grande do Norte e da Bahia concentram parcela majoritária da capacidade instalada, e seus territórios são, desde o início dos anos 2000, espaços prioritários da política energética nacional. Algumas das principais apostas contemporâneas — como a produção de hidrogênio verde — reforçam essa vocação. Discursos governamentais e empresariais anunciam o sertão como “celeiro energético”, “território do futuro”, “fronteira da inovação verde”.
No entanto, como adverte Derrida, futuros demasiadamente antecipados se tornam espectros: existem sobretudo na promessa — e raramente na experiência concreta das comunidades afetadas. A instalação de grandes empreendimentos energéticos altera profundamente a paisagem, o uso da terra, a rotina de trabalho, o som do ambiente, os modos de vida, as formas de pertencimento e as relações com o território. Por um lado, há investimentos, empregos temporários e circulação econômica. Por outro, há especulação imobiliária, pressão sobre comunidades tradicionais, fragmentação territorial, surgimento de novos conflitos e impactos ambientais que ainda carecem de avaliação adequada. As turbinas renovam a paisagem, mas também introduzem ruídos, luzes intermitentes, cercamentos e deslocamentos.
O sertão passa a experimentar uma modernização que se instala sem se enraizar. Os projetos chegam em descontrolada velocidade, enquanto a vida local permanece regida por temporalidades próprias, pouco compatíveis com a urgência empresarial que lhes é imposta. O território fica suspenso entre sua história e a narrativa de um futuro prometido, constituindo um entre-lugar no qual o desenvolvimento se apresenta como horizonte inevitável, mas sem garantias de conversão em benefícios concretos para a população. Esse descompasso evidencia que a modernização não implica, necessariamente, integração territorial.
Ao contrário, produz uma sobreposição de ritmos, lógicas e escalas que resulta em um processo paradoxal: o sertão moderniza-se e, ao mesmo tempo, esvazia-se; recebe infraestrutura, mas perde vínculos; exibe máquinas de última geração enquanto mantém ocultas precariedades persistentes. A experiência territorial adquire, assim, uma qualidade quase fantasmagórica. Diante dessas chegadas abruptas, torna-se necessário repensar os próprios conceitos herdados da industrialização. Parte-se de uma condição próxima à de terra nua, em que a produção de capital físico se encontra esgotada, e contornam-se os chamados “estágios industriais” (Prieto, 2016). Avança-se diretamente para formas de capital fictício, nas quais a terra permanece materialmente desnuda, mas passa a gerar valor que raramente se concretiza, exceto na proliferação de torres, placas e intensos processos de desterritorialização. Nesse contexto, o vocabulário da modernização se reconfigura. Já não se trata apenas da lógica industrial clássica, mas de uma aceleração que escapa às referências tradicionais do desenvolvimento (Mészáros, 2011). A velocidade que atravessa o sertão não é a da fábrica ou da linha de montagem, mas a de uma racionalidade quase extraterrestre, inculcada pelos interesses do capital estrangeiro.
A metáfora da fome moderna — inspirada na narrativa de Erisícton — ajuda a compreender o funcionamento dessa dinâmica. O capitalismo verde requer expansão constante: quanto mais energia se produz, mais energia se demanda; quanto mais parques eólicos são instalados, maiores se tornam os projetos futuros; quanto mais se anuncia o hidrogênio verde, mais territórios são mobilizados para viabilizá-lo. A fome energética é estrutural: ela não visa saciedade, mas continuidade. O sistema funciona ampliando sua própria necessidade. Assim como Erisícton devorava sem jamais satisfazer-se, o capitalismo contemporâneo consome territórios, recursos e expectativas sem alcançar equilíbrio. A demanda infinita é seu motor (Antunes, 2011).
Quando deslocamos o olhar das torres eólicas para os cotidianos que as cercam, percebemos que esse processo não é meramente técnico ou econômico. Ele é social, cultural, ecológico e afetivo. Envolve rupturas de modos de vida, transformações na lógica comunitária, deslocamentos simbólicos que reconfiguram a forma de imaginar o futuro (Bonneuil; Fressoz, 2024). A energia, antes de ser recurso, é relação. Antes de ser fluxo elétrico, é um fluxo de vida. Esse aspecto, contudo, tende a ser eclipsado por narrativas tecnocráticas que reduzem o debate a cálculos de produção, eficiência e competitividade global. O que está em jogo é maior: trata-se da experiência do tempo em seu sentido mais profundo.
Por isso, o debate mais urgente não está apenas na distribuição de energia ou no equilíbrio tarifário, ainda que essas dimensões sejam fundamentais. O ponto crucial reside nas formas pelas quais as comunidades vivenciam a chegada desses empreendimentos e reinterpretam suas paisagens (Cataia; Duarte, 2022). Para que direção são projetados seus futuros? Que lugar lhes cabe nas decisões? Que vínculos se desfazem e que novos vínculos emergem? Como se alteram as percepções de pertencimento, memória e continuidade? Que novas vulnerabilidades são produzidas?
Essas questões revelam a necessidade de compreender a transição energética como fenômeno situado, indissociável das pessoas que habitam os territórios. A energia emerge como linguagem do mundo moderno, mas seu sentido se define na relação com aqueles que a produzem, a vivem e a suportam.
O sertão, assim, oscila entre dois polos: de um lado, a promessa radiante de um futuro tecnológico; de outro, a persistência de desigualdades e ausências que resistem à modernização. Entre um e outro, instala-se um território fantasmagórico, marcado por presenças intensas — as máquinas, os investidores, os discursos — e ausências igualmente poderosas — as vidas que não são escutadas, os vínculos que se desfazem, a memória que se dilui. A paisagem tecnológica não elimina a precariedade social; apenas a reveste de brilho metálico.
Dessa forma, o sertão revela uma verdade maior: a modernidade, quando observada em sua intimidade, opera como regime temporal que desloca, suspende e esvazia. A energia renovável não escapa a essa lógica. A técnica não atua de forma neutra; organiza ritmos de vida, molda percepções, produz silenciamentos. E embora a transição energética seja imprescindível para a sobrevivência planetária, seu modo de implementação define se ela será emancipadora ou predatória.
O desafio, portanto, consiste em enfrentar a fome moderna não com negação do futuro, e sim com atenção ao presente. É preciso fortalecer a organização política, ampliar a participação comunitária, reformular marcos regulatórios e reconstruir vínculos sociais que resistam à voracidade da modernidade. Somente assim será possível impedir que o futuro projetado devore o presente vivido.
Compreender o sertão sob o signo da fantasmagoria — não como metáfora literária, mas como regime temporal — ilumina a forma como o capitalismo contemporâneo reconfigura territórios. Mostra que a modernidade não avança de modo linear; ela avança produzindo espectros (Derrida, 1994). E esses espectros não desaparecem sozinhos: exigem atenção, escuta, responsabilidade e imaginação. É por isso que pensar o tempo se torna uma tarefa política. É por isso que o sertão, atravessado por máquinas e promessas, é também um espelho do mundo.
Enquanto isso, nas cidades, assistimos a um outro tipo de metamorfose, cujos contornos muitas vezes parecem retirados de um romance de ficção científica. Trata-se da crescente digitalização da vida urbana, processo no qual plataformas como Airbnb, Booking, Trivago, Uber e iFood não apenas intermediam serviços, mas acabam por reorganizar profundamente os modos de habitar, circular, trabalhar e se relacionar. Essas plataformas não se limitam a oferecer facilidades técnicas: elas produzem novas formas de imaginar a cidade e, sobretudo, de ocupá-la. Ao fazê-lo, desenham uma ontologia urbana na qual tudo — casas, carros, bicicletas, corpos — torna-se potencialmente um serviço, uma mercadoria, um ativo disponível ao fluxo.
A digitalização reconfigura, assim, tanto a paisagem física, quanto o campo simbólico que sustenta a ideia de casa. O lar, historicamente associado à permanência, ao afeto e ao pertencimento (Pontes; Rosatti, 2022), converte-se em “oportunidade de hospedagem”; torna-se passível de ser alugado por dia, por hora, por demanda. Nesse processo, a casa perde parte de sua densidade relacional e passa a integrar um circuito global de consumo turístico e financeirizado. O capitalismo, portanto, apropria-se não apenas das necessidades materiais de moradia, mas das dimensões afetivas e imaginárias que constituem o ato de habitar. O lar, antes expressão de vida cotidiana, transforma-se em ativo financeiro. O bairro, antes tecido por relações, transforma-se em produto imobiliário.
Recorro novamente a Antonio Bispo (2023), que nos convida a repensar nossa relação com o mundo e — por extensão — com os mundos que construímos. As cidades, esses espaços artificiais que adquiriram vida própria, só revelam suas dinâmicas mais profundas quando observadas “a olho miúdo”, numa atenção próxima ao detalhe, ao gesto, ao hábito, ao chão pisado.
É nesse tipo de observação que percebemos como a expansão das “casas-hospedagem” está diretamente articulada ao crescimento dos “veículos-uber”. Cada automóvel converte-se em potencial Uber; cada motocicleta ou bicicleta transforma-se em potencial entregador. O mesmo movimento que transforma a casa em hospedagem transforma o carro em serviço: trata-se da mesma lógica, a lógica da plataformização. Uma lógica que opera dissolvendo fronteiras entre vida e trabalho, entre espaço privado e espaço público, entre habitar e produzir lucro. Estamos, portanto, diante de uma uberização ampliada: tanto dos instrumentos de deslocamento e das formas de trabalho, quanto das próprias moradias. O lugar onde se vive torna-se também o lugar onde se oferece um serviço. O lar deixa de ser abrigo para se tornar vitrine. O espaço doméstico se expõe ao mercado global; a intimidade, convertida em decoração atrativa, torna-se moeda de circulação.
Essa transformação funda o que podemos chamar de lógica da hospedagem, que se infiltra nos tecidos urbanos com efeitos profundos. Bairros tradicionais passam a ser turistificados; os preços de aluguel sobem; moradores antigos são expulsos; comunidades se desfazem. Casas deixam de ser lares e tornam-se ativos que precisam ser constantemente otimizados para garantir boa taxa de ocupação. A cidade, nesse contexto, converte-se em fluxo — e o habitar, em transação. A vida cotidiana é substituída por uma vida em trânsito, na qual a permanência perde força diante da lógica da rotatividade, da atualização constante, do valor de mercado.
Não surpreende, portanto, que essa nova configuração urbana produza uma espécie de fantasmagoria. Assim como no sertão, onde o futuro prometido paira como espectro sobre o presente, também nas cidades há presenças estranhas que se instalam. Casas parecem habitadas, mas permanecem vazias à espera de turistas. Bairros renovados e coloridos recebem visitantes, mas perdem seus moradores. Centros urbanos se enchem de movimento, fotografias, consumo, mas esvaziam-se de vida cotidiana, de vizinhança, de vínculos.
Daí um movimento pendular que rompe com os vínculos dos moradores com os espaços urbanos. A cidade torna-se, assim, fantasmagórica: movimentada, mas sem densidade; iluminada, mas sem permanência; habitada, mas não vivida. Uma cidade cheia de presenças ausentes — as presenças fugazes dos turistas, dos entregadores, dos usuários de aplicativos — e marcada pela ausência daqueles que a constituíam como espaço vivo. Nesse cenário, a urbanidade perde sua temporalidade lenta, aquela capaz de produzir história e memória, e passa a operar num regime de urgência e espetáculo.
É essa paisagem espectral que se entrelaça com o sertão futurizado: dois lados de uma mesma modernidade voraz, que reorganiza vidas e tempos segundo a lógica da demanda, do consumo e do lucro. Reconhecer essa fantasmagoria urbana é, portanto, condição para compreender o que está em jogo — e para imaginar outras formas de habitar que ultrapassem a voracidade da modernidade.
O elo profundo que articula a transição energética no sertão e a plataformização das cidades é, como sugerimos desde o início, o tempo. No sertão, instala-se um tempo projetado, um futuro que se adianta e suspende o presente, submetendo a vida cotidiana à espera de promessas que nem sempre se concretizam. Na cidade, ao contrário, vigora um presente contínuo, permanente e acelerado, um agora que se renova incessantemente e esvazia a possibilidade de futuro. A modernidade opera, assim, por meio de descompassos temporais: acelera uns, retarda outros; promete mundos, mas frequentemente esquece vidas; cria demandas, enquanto apaga experiências. É nesse desajuste das temporalidades que emergem as fantasmagorias, essas presenças ausentes que habitam nosso cotidiano e revelam a dissonância entre o que se vive e o que se promete.
Retomar o mito de Erisícton nos ajuda a compreender a lógica que sustenta tais processos. A modernidade produz desejos infinitos; o capitalismo converte esses desejos em necessidades; a técnica os transforma em consumo; e o consumo, por sua vez, transforma o mundo — e nós mesmos — em mercadoria. No limite, esse sistema devora a si próprio. Como alerta Jappe (2019), trata-se de uma sociedade autofágica, que consome não apenas seus recursos naturais, mas seu tempo, seu território, seus corpos, seus afetos, sua memória e, em última instância, sua própria possibilidade de futuro.
Por isso, pensar o tempo é pensar contra essa fome — essa voracidade que tudo captura, acelera e desgasta. Se não podemos deter a marcha do futuro tal como tem sido imaginado, podemos agir no presente, fortalecendo formas de organização política, promovendo justiça territorial, cultivando autonomias comunitárias e defendendo modos plurais de habitar que não reduzam a vida a métricas de eficiência ou a índices de rentabilidade. Trata-se de recuperar a densidade do presente, não como intervalo entre promessas, mas como espaço real de invenção coletiva (Krenak, 2019).
O gesto fundamental que este ensaio propõe é simples e, ao mesmo tempo, profundamente político: olhar de perto. Escutar o sertão, escutar a cidade; perceber os espectros que as atravessam; reconhecer tanto o que nelas se anuncia quanto aquilo que nelas se perde. Só quando compreendemos as fantasmagorias que nos habitam — suas formas, seus ritmos, seus efeitos — podemos começar a imaginar outros modos de existir: modos menos vorazes, menos autofágicos, menos devoradores. Modos capazes, talvez, de escapar da insaciável fome da modernidade e abrir espaço para futuros verdadeiramente compartilháveis.
Antunes, Ricardo. “Introdução: a substância da crise”. In: Mészáros, István. A crise estrutural do capital. 2a ed. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 9-16.
Bispo, Antonio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023.
Bonneuil, Christophe; Fressoz, Jean-Baptiste. O acontecimento Antropoceno: a terra, a história e nós. São Paulo: Quina; Campinas, Editora da Unicamp, 2024.
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Coletivo Fulor de Mulungu. Cidade em Disputa: Transições Energéticas e Financeirização do Urbano (online). In: Circuito Urbano 2025. Realização ONU-Habitat, 18 out. 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SzLnUTcyfHk&list=PLpPCctnHLeCfDHrAtL2OjQ02BkprTY_tp&index=8. Acesso em: 02 dez 2025.
Derrida, Jacques. Espectros de Marx: O estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
Jappe, Anselm. A sociedade autofágica: capitalismo, desmesura e autodestruição. Lisboa, Portugal: Antígona, 2019.
Krenak, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Mészáros, István. A crise estrutural do capital. 2a ed. São Paulo: Boitempo, 2011.
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Pontes, Heloisa; Rosatti, Camila Gui (orgs.). Casa-mundo. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, 2022.
Prieto, Gustavo Francisco T. Rentismo à brasileira, uma via de desenvolvimento capitalista: grilagem, produção do capital e formação da propriedade privada da terra. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.11606/T.8.2017.tde-27032017-104718, acesso em: 02 dez. 2025.
José Maycom da Silva Cunha é professor e pesquisador. Bacharel em Ciências Sociais (2017) e Mestre em Antropologia Social (2020) pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Licenciado em Ciências Sociais (2023) e Especialista em Educação Inclusiva (2023) pela Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL). Doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Integra os grupos de pesquisa: Artes, Saberes e Antropologia (Coletivo ASA/USP); Gênero, Corpo, Saúde e Sexualidade (GCS/ UFRN); e, Religião, Artes, Materialidades e Espaços Públicos (MARES/UFRGS). Atua nas linhas de pesquisas A memória e suas artes; Corpo, gênero e Sexualidade; Arte Pública, Agenciamentos Políticos e Configurações Urbanas. Editor no Coletivo Editorial Fulor de Mulungu. Professor Substituto no Departamento de Antropologia e Sociologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Autoria: O autor é responsável pela coleta de dados, sistematização e síntese dos argumentos apresentados ao longo do texto, bem como por sua escrita.
Financiamento: Não especificado.
Recebido em: 02/12/2025
Aprovado para publicação em: 16/12/2025